Suicídio: Noticiar ou não este tema na imprensa

A notícia pode influenciar ou prevenir, dependendo da forma que é publicada.

Caio Machado
26/07/2016 - 16h20

Suicídio: Noticiar ou não este tema na imprensa

A complexidade do tema suicídio tornou-se indiscutivelmente o maior tabu do meio jornalístico. O assunto transcende a maior conquista da imprensa, consolidada com a criação do inciso IX do Artigo 5º da Constituição Federal que nos garante a liberdade de expressão.

Em Patos de Minas, somente neste fim de semana, três atos de suicídio foram consumados por pessoas de diferentes personalidades e classes socioeconômicas. O número de casos registrados em 2016 é gradativo em relação aos anos anteriores.        

Como de costume a imprensa não noticiou os casos recentes, porém fotos das vítimas e informações que transcendiam limites, como laudos médicos e informações sobre relacionamentos, eram difundidos livremente em redes sociais instantâneas como o Whatsapp.

Procurada pela redação do Patos Notícias, a especialista em Saúde Mental e Atenção  Psicossocial Gleidimar Magalhães  Campos, discutiu alguns tópicos recorrentes sobre a discussão do suicídio na imprensa e sociedade moderna.

Para a psicóloga o tema é evitado pela imprensa pelo pressuposto de que a veiculação de reportagens sobre o assunto acabaria influenciando pessoas com a saúde mental abalada, culminando em tentativas de tirarem as próprias vidas.

O resultado desta evasão do tema dificulta as possibilidades de diálogo sobre os fatores que o provocam. “Enquanto o suicídio continuar velado e não for tomado como tema de discussão pública, será muito mais difícil sanar e debater as causas psicossociais que levam as pessoas à ideação suicida”, afirma Gleidimar.

A solução vislumbrada pela psicóloga está na maneira de como a mídia noticiaria o assunto: Se ele é noticiado de forma bruta, possivelmente tornar-se-ia um fator influenciador. Se acompanhado de uma devida explicação, adquirira o caráter preventivo.

Com o assunto mais visado, ficaria mais fácil para as pessoas identificarem sintomas depressivos que ocasionalmente resultaria em suicídios de indivíduos próximos. A psicóloga pontua algumas características que podem indicar algum tipo de comportamento suicida. São elas:

  • frases negativas de desamparo e desmotivação ditas com frequência;
  • tristeza recorrente;
  • mudanças repentinas de comportamento;
  • abandono de antigos hábitos;
  • falta de entusiasmo para realizar suas tarefas;
  • ausência de perspectivas sobre o futuro;
  • dificuldade em enxergar o lado positivo das situações;
  • imagem negativa de si próprio;
  • aumento do consumo de drogas;
  • automutilação;
  • dificuldades de interagir socialmente;
  • comportamento introspectivo.

Caso sejam diagnosticadas algumas dessas características, Gleidimar orienta que as pessoas busquem por ajuda de um profissional do ramo da Psicologia ou do serviço de Atenção Primária e Estratégia da Saúde da Família nas unidades básicas de saúde da cidade.

Os tratamentos são realizados por meio de psicoterapia e intervenções com a família e pessoas próximas ao indivíduo, de forma a aumentar os laços afetivos e até mesmo medicá-lo de acordo com as necessidades psicológicas.

 

Precisamos falar sobre suicídio e isso deve ser feito com muita responsabilidade. Principalmente em redes sociais, onde a privacidade das vítimas, não passa por um filtro como acontece na imprensa. A mídia também precisa ser cautelosa, independente da linha editorial e ideologia do veículo que trará o assunto à tona.

 

Gleidimar Magalhães Campos (CRP 04/35262) é especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial e atua como psicóloga no Grupo Farroupilha e na Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Patos de Minas (Esperança Azul). Também é vice-presidente do CMAS - Conselho Municipal de Assistência Social de Patos de Minas.

Foto: Caroline Borges