É pouca autoescola pra muito barbeiro!

Assinado por Caio Machado, o primeiro texto da nova seção de crônicas do Patos Notícias é sobre o trânsito da cidade.

Caio Machado
24/10/2016 - 15h35

É pouca autoescola pra muito barbeiro!

Nas páginas amarelas da lista telefônica cedida anualmente aos patenses, encontramos dez centros de formação de condutores a disposição dos quase 150 mil habitantes que aqui residem e dirigem. É pouca autoescola pra muito barbeiro! É quase crível que essa seja a raiz de todos os problemas no trânsito que vivenciamos por aqui. Eu disse quase.

Não dá pra jogar a culpa inteiramente nos educadores de trânsito. A cidade não foi planejada devidamente, não temos vias o suficiente para os ciclistas e a recentes mudanças de sentidos e inserção de semáforos tendem a confundir os condutores. Sem dizer que a Rua Major Gote ainda esta na velha Odisseia da finalização das obras da terceira faixa.

Quem tem veículo quase nunca é pontual. A lógica de que viver numa cidade pequena como Patos de Minas, que torna qualquer destino acessível em pouco menos de vinte minutos, acomodou uma legião de motoristas desleixados. O problema é que o descompromisso com a pontualidade torna esses mesmos indivíduos seres vorazes e apressados no trânsito.

Nesse abarrotado sistema tentaremos compreender primeiro os motociclistas. Temos o herói da 150, o exemplo clássico de motoqueiro que arranca desesperado, acelera seus 60, 80km/h e breca instantes depois no próximo semáforo, para ficar vários segundos parado, super impaciente, dando aceleradas eufóricas com o freio apertado. Alguns destes deslocam-se de tempos em tempos e chegam até a queimar a faixa de pedestres, haja impaciência...

Segundos depois, o mesmo cara que saiu ao lado do herói da 150 e arrancou devargarzinho, faz o mesmo itinerário a 20km/h, para ao seu lado, reduz as marchas até o ponto neutro e aguarda pacientemente. O consumo de combustível do herói da 150 é quase o dobro do outro motociclista que dirige na maciota. Sem contar que na maioria das vezes ele evita dar as famosas costuradas e de andar no corredor dos carros. Os dois sempre chegam juntos.

Prosseguindo com esta antropologia do trânsito temos os carros, carretas, caminhões, etc. Para os motoristas de veículos de quatro rodas o buraco é mais embaixo. A falta de agilidade dos carros faz com que um efeito dominó ocorra a cada parada. O primeiro veículo arranca; o próximo sai em quase dois segundos depois; o terceiro que estava distraído no Whatsapp arranca três, quatro segundos atrasado; e o quarto, coitado, ou avança no amarelo, ou espera por mais um sinal verde.

Interessante notar que na capital do milho predomina certo daltonismo psicológico. Majoritariamente os motoristas afobadinhos insistem em enxergar a cor amarela como se ela fosse verde. É quase a mesma coisa que o semáforo de pedestres, onde só existe verde e vermelho. O problema é que o sinal verde acaba tendo que ficar vermelho, porque vai ter sempre um espertinho furando o sinal e convém esperar mais um segundinho antes de sair. Coloca esse tempo na conta dos carros... Acho que nem o terceiro da fila passa!

O texto até aqui pode ter soado demasiadamente cômico... e seria, se não houvesse tantos acidentes causados por essa imprudência deveras desajeitada. Para uma crônica futura eu poderia dissertar sobre as bebidas alcoólicas, a velha amiga de motoristas que se reafirmam no trânsito: “dirijo até melhor bêbado”, “só uma caixa de cerveja? Dá pra ir tranquilo”, etc. E se a bebida é amiga desse padrão de motoristas, diria então que ela é irmã de sangue (perdoe o trocadilho) das vítimas fatais.

Os acidentes em Patos de Minas destoam-se da lógica de que um raio nunca cai no mesmo lugar. Pelo contrário, os acidentes parecem ter residência fixa. Tomemos de exemplo a Avenida Juscelino Kubitschek, a velha JK, que por uma mórbida coincidência tem o nome do ex-Presidente da República mineiro, morto num acidente automotivo em 22 de agosto de 1976. Volta e meia a Avenida é palco de mais tragédias. Nem mesmo as lombadas e o radar recém-instalado consegue combater o principal inimigo da prudência: a pressa.

Não posso creditar o caos do trânsito patense inteiramente ao escasso número de CFCs da cidade. Temos os motoristas inabilitados que se multiplicam e sempre saem ilesos graças aos grupos de WhatsApp e aplicativos como Waze, que informam onde ocorrem blitz policiais. Temos ainda os motoristas que são habilitados, mas que não sabem de fato como dirigir, porque convenhamos: estacionar entre cones e andar por bairros desertos não prepara corretamente ninguém para as ruas de uma cidade agitada.

É tanto acidente e tanta imprudência que se todo mundo que tivesse acesso a essa crônica resolvesse andar na linha, eu perderia meu emprego de jornalista, pois a cidade nunca mais presenciaria nenhuma catástrofe no trânsito. Faltaria pauta. Repetindo: é pouca autoescola pra muito barbeiro. É muito automóvel pra pouca via. É muita pressa para quem deixa para fazer tudo em cima da hora. Apertem os cintos e fechem as viseiras dos capacetes. O trânsito patense é fogo!

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais.

Agostine Braga é professor de literatura e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

Foto: Agostine Braga