OPINIÃO: A ocupação estudantil em Patos de Minas

O jornalista Caio Machado opina sobre as manifestações que ocorrem desde a segunda-feira (31/10) na Escola Estadual Dona Guiomar de Melo.

Caio Machado
01/11/2016 - 11h39

OPINIÃO: A ocupação estudantil em Patos de Minas

A ocupação da Escola Estadual Dona Guiomar de Melo já dura mais de 24 horas e o que vemos na cidade é o mesmo discurso de ódio repetido país a fora. A maior adversidade entre a sociedade e os estudantes é a de julgá-los incapazes de estarem ali para manifestar por supostamente desconhecerem profundamente a PEC 241.

A primeira coisa que me vem na cabeça é “caramba, os estudantes estão reivindicando uma emenda constitucional que congelará investimentos na educação e são tratados como ignorantes?”.  Trocando em miúdos: os alunos lutam contra uma causa que possivelmente prejudicará o ensino e a sociedade enxerga isso como algo ruim.

Até aí tudo bem. Temos inúmeros vídeos de alunos de escolas ocupadas pelo país sendo entrevistados e não fazendo a menor ideia do motivo de estarem ali. Eu mesmo estive nas imediações da E.E. D.ª Guiomar de Melo e percebi certo ar de desinformação pairando pelas cabecinhas de alguns dos estudantes. Porém a questão é outra.

Mesmo que os alunos ainda estejam engatinhando na formação de um pensamento crítico e politizado, será em ações como essas que o real interesse no assunto despertará e amadurecerá. Não dá pra esperar que um país com a educação pública amplamente sucateada, nos apresente prodigiosos cientistas políticos de quinze anos de idade.

E não podemos esquecer que foi em junho de 2013 que os brasileiros começaram a preencher as ruas para manifestar contra o aumento do preço da passagem de ônibus e posteriormente contra a Presidente da República já despossada. Se o “gigante não tivesse acordado”, não haveria sequer Michel Temer propondo a PEC 241 e a medida provisória da reforma do ensino médio reivindicada pelos estudantes.

O país não fazia algo do tipo desde a era Collor e os caras pintadas. Três anos de manifestações é muito pouco para saber lidar com a enxurrada de críticas que os jovens andam recebendo. É incrível notar que o principal motivo que mantém esse assunto em alta na cidade é a briga sem fim entre “direita” e “esquerda” nas postagens do Facebook e em portais de notícias locais.

O pano de fundo real do contexto fica de lado e as ofensas medíocres ganham cada vez mais força. Não vim aqui puxar sardinha para nenhum lado. Confesso, sinto-me romantizado pela esperança de mudanças que tive após assistir o belo discurso da estudante paranaense Ana Júlia, que com apenas 16 anos desmoronou meia dúzia de deputados no Paraná e viralizou no Brasil.

Ao mesmo tempo percebo que as ocupações podem prejudicar a agenda de estudantes que estão dando duro para prestar o ENEM no fim de semana. Aí paira outra crítica que vem sido repetida exaustivamente: “Enquanto isso nas escolas particulares os alunos estão tendo aulas aos sábados e domingos para reforçar o ENEM”. Sério, isso é um argumento? Esse mesmo pessoal ainda consegue defender a meritocracia?

Os professores da rede pública estão desmoralizados e recebem salários irrisórios. As escolas fornecem o mínimo de estrutura aos alunos. O desinteresse dos estudantes é quase inacreditável, o que basicamente justifica o tamanho descrédito da sociedade perante as ocupações. É um beco sem saída. E na minha modesta e singela opinião, ao máximo que posso ser de imparcial, censurar e cessar as manifestações é andar de ré.

Eu penso no cenário todo como uma “escola” para que esses alunos e futuros profissionais e até mesmo políticos, sintam que o papel deles nas ocupações, na confecção de um cartaz que seja, possa torna-los cidadãos melhores e participativos. Estamos construindo uma sociedade pensante que até pouco tempo nunca imaginou que veria políticos presos e a líder máxima da nação impedida.

O debate aqui não é partidário, como relutou a brilhante Ana Júlia aos prantos em sua fala na semana passada. A pauta discutida é a Educação. Será que Patos de Minas consegue deixar o conservadorismo interiorano e o julgamento de lado por um instante que seja, e enxergar o contexto inteiro?