CRÔNICA: Questionando a quem quer questionar

Redigida por Caio Machado, o texto de hoje faz alusão aos alunos que questionaram as ocupações estudantis em Patos de Minas.

Caio Machado
07/11/2016 - 16h06

CRÔNICA: Questionando a quem quer questionar

A ocupação da E. E. D.ª Guiomar de Melo durou sete dias e teve fim na tarde de hoje. Não levou nem três dias para que o inofensivo ato obtivesse resposta de alunos contrários ao movimento. A escola foi entregue mais limpa do que estava e um punhado de alunos sentiram na pele os prós e contras obtidos em manifestações estudantis.

Antes de dar continuidade quero comentar o quanto acho engraçado a ideia precipitada e maniqueísta das pessoas sobre as ocupações que acontecem no país. Tudo sempre é associado ao ócio, vagabundagem e idealismo partidário. Os alunos são sempre considerados incapacitados e impensantes. Como se não houvesse um bem maior.

De imediato, filmes como “Sociedade dos Poetas Mortos” e o nem tão conhecido “A Onda” surgem em minha cabeça. A mesma ideia da existência de um professor subversivo e doutrinador que conduz um grupo de alunos a atos extremos imperam no imaginário do brasileiro. Repito, como se não houvesse um bem maior.

Seguindo em frente, é um tanto curioso lembrar que em Patos de Minas, a ocupação contra a PEC 55 e a MP 746 ocorreu numa semana que havia sido dividida ao meio pelo feriado de finados. Se bem conheço o jeitinho brasileiro, o rendimento estudantil, profissional, etc. tende a cair quando aparece algum feriado.

Na data, estive no cemitério prestando condolências ao meu falecido padrinho. Pouco antes de encontrar sua lápide dei uma corrida até a delegacia de polícia logo em frente ao cemitério para gravar uma matéria de TV. O ato de trabalhar em um feriado não me custou nada, e nessa mesma lógica resolvi me inteirar mais sobre as ocupações e dar uma conferida de perto nos atos.

Logo no dia seguinte a E. E. Marcolino de Barros também foi ocupada e antes mesmo de vir para o jornal passei na porta do colégio. Assim como na primeira escola ocupada, não consegui adentrar e nem apurar muita coisa. Não concordo muito com essas questões envolvendo cadeados e a ausência de um porta voz para lidar com a imprensa.

Poucas horas depois aconteceu o tal ato que culminou na liminar das assinaturas colhidas de alunos, pais e pessoas contrárias à ocupação. Novamente fui tentar a sorte.

E não é que encontrei estudantes determinados, organizados, abertos ao diálogo e vagamente bem instruídos sobre a situação política da qual buscavam impedir os poucos colegas que tentam embarga-las com a esparsa ocupação.

Os argumentos dos adolescentes eram simples e metódicos. Queremos estudar e queremos fazer o ENEM. Os mesmos diziam-se contra a PEC e alegavam veemente que os ocupantes não faziam a menor ideia do que estavam fazendo no interior da escola.

Alguns professores passavam pelo lugar e opinavam sobre a ocupação, a PEC e a reforma do ensino médio. Não encontrei nenhum docente que fosse favorável as medidas propostas pelo governo. Porém existia certa relutância contra a forma em que isso era reivindicado.

Por algum tempo cheguei a admirar a determinação daqueles alunos que lutavam por assinaturas para que o colégio fosse desocupado. Oito anos antes eu estava na mesma escola e só pensava em tocar guitarra. Nem o escândalo do mensalão me deixava interessado o suficiente por política.

Bem, nem tudo são flores.

Durante a entrevista, alguns deslizes foram cometidos por aqueles estudantes que remavam na contramão da contramão. Perguntei se só os alunos secundaristas ocupavam a escola e ingenuamente eles me disseram que além deles, também havia ocupantes do 1º e 3º ano do ensino médio...

Só lembrando que o termo secundarista faz alusão aos estudantes que cursam o segundo grau. E não apenas aos alunos do 2º ano do ensino médio. Acho feio corrigir os erros das pessoas, mas os mesmos alunos que cometiam o grotesco equívoco acusavam os ocupantes de não saberem de nada.

Havia também certo juízo de valor sobre quem estava assinando as listas. “Não estamos pedindo para qualquer pessoa assinar”, disse uma das alunas. Será que eles escolhiam quem eles julgavam estar bem apresentados, bem vestidos ou algo do tipo? Quem sou eu para afirmar algo. De todo jeito, o grupo fazia questão de explicar do que se tratava a petição.

Quando vi uma das alunas se despedindo dos colegas porque precisava ir embora para trabalhar no período da tarde, não pude esconder meu descontentamento.

Afinal, a medida provisória de reforma do ensino médio visa ampliar a carga horária de estudo passando de quatro para sete horas diárias, o que consequentemente prejudicaria a todos os alunos que trabalham em empregos de meio período no turno da tarde.

Seja para complementar a renda de casa, seja para comprar uma roupinha ou ir para as festas do momento. É muito comum ver alunos estudando de manhã e trabalhando a tarde. Eu era um desses e jamais impediria que alguém protestasse contra algo que prejudicasse esta condição.

Sei da importância de conhecer ainda jovem o mercado de trabalho e aprendi tardiamente a importância de se interessar por política.

Contradições à parte, a minha empolgação com o movimento evaporou-se quando um dos envolvidos disse ser favorável ao Programa Escola Sem Partido. Isso não vem ao caso agora e pode se tornar tema de outra crônica.

Por fim, tive certeza que aquilo tudo era uma furada quando um professor de história deu as caras e eu pude entender que aquilo tudo não se tratava totalmente de uma iniciativa que partia dos próprios alunos.

Não estou dizendo que as ocupações em si não tenham dedos de alguns professores, inclusive, tanto os alunos que ocupam quanto os que são contra sentem-se incomodados com a interferência de alguns educadores.

Porém parte deste discurso do pessoal contrário as ocupações faz alusão à partidarismo e possível doutrinamento dos alunos por parte de seus mestres.

Falando em doutrinamento e partidarismo, descobri posteriormente que o professor que guiava os alunos é fortemente vinculado a um partido político na cidade. Bem, levando isso em conta, poderia chutar que a luta entre os lados deve estar no mínimo acirrada.

A manifestação segue forte país afora e na cidade prossegue devagar apenas na E. E. Marcolino de Barros. Não estou aqui articulando uma rixa maior para nenhum dos lados e muito menos agindo como o eterno estranho sem nome vivido por Clint Eastwood no clássico faroeste espaguete “Por uns dólares a mais”.

Na trama, o caubói decide se dar bem lucrando ao trabalhar para duas gangues rivais que brigavam na cidade em que o filme é ambientado. No meu caso, eu prefiro ver qual dos dois lados se sairá melhor. O que questiona, ou o que questiona quem quer questionar.