A falta de gentileza

Assinada por Caio Machado, a crônica desta semana aborda o clima chuvoso e a falta de pauta nas redações jornalísticas.

Caio Machado
14/11/2016 - 17h46

A falta de gentileza

Patos de Minas consegue ser bem pacata quando quer. Em dias chuvosos como estes, o pessoal da imprensa quase implora para que algo ocorra e renda reportagens. Às vezes a falta de pauta nos força a produzir matérias banais sobre o clima ou sobre algo que viralizou na internet.

Nestes dias é comum que o bocejo impere nos escritórios e redações jornalísticas. Para fugir desse sonolento mal, o caminho mais fácil é apelar para o consumo de cafeína. Certo dia da semana passada, quando a falta de pauta reinava, atravessei a rua e caminhei até o MC Donald’s para tomar um cappuccino.

Durante a espera na fila presenciei um funcionário da rede de fast food cantando uma colega de trabalho. Assim, na cara dura mesmo. Na frente de colegas e clientes. Pior do que o desconforto sentido pela garota, era o sentimento de nulidade que eu tive por não ter interferido em tal assédio sofrido pela menina. Aliás, sofrido diariamente pelas mulheres.

Após terminar o pedido, peguei meu cappuccino e fui até o lugar em que costumo me sentar. Em cima da mesa havia uma bandeja com as sobras de alguém. Eu estava meio sonolento e colérico com o que havia acabado de presenciar e nem liguei para aquela bagunça deixada por algum cliente anterior.

Instantes depois, comecei a ouvir risos e um burburinho das pessoas que estavam atrás de mim.

“Moço, eu não sei se você queria sentar comigo, mas tudo bem. Eu sento em outro lugar!”. Sim, uma moça bastante enfurecida havia deixado o lanche naquela mesa. Não se tratavam de sobras... E antes mesmo que eu pudesse perceber ou me desculpar pelo embaraçoso incidente ela abruptamente arrancou a bandeja da mesa e sentou-se atrás de mim.

Perguntei se ela queria se sentar naquela mesa e disse que não havia percebido que a bandeja não havia sido consumida, mas ela me tratou com a mesma falta de gentileza. De imediato me senti como o carinha que havia acabado de passar uma cantada na colega de serviço. Como se aquilo se tratasse de uma invasão de privacidade ou mesmo de algum tipo de assédio.

Alguns goles de cappuccino depois, percebi que aquela reação havia sido exagerada da parte daquela mulher, e que eu não havia agido tão mal por ter sido tão distraído. Fiquei pensando no que ela havia dito e percebi que aquela seria uma boa oportunidade para que duas pessoas, estressadas com o excesso de trabalho, ou no meu caso, pela falta dele, pudessem se conhecer.

Que mal haveria em manter um diálogo com alguém que acidentalmente invadiu sua mesa?

Essa falta de gentileza é muito comum no nosso Brasil. Quase não consigo entender como temos a fama de sermos tão cordiais. Pra completar a narrativa, assim que terminei o cappuccino, me levantei para dispensar o lixo e novamente pedi desculpas para a moça, que as aceitou e me devolveu um sorriso largo. Quem consegue entender as pessoas?

Se o Patos Notícias não se limitasse ao munícipio, eu poderia preencher as lacunas do ócio lamentando a vitória de Donald Trump; enaltecendo a turnê de retorno da formação clássica do Guns ‘N’ Roses pelo Brasil, que graças ao clima chuvoso ressignificou o clássico “November Rain”; ou sei lá, eu poderia lamentar também a alta do dólar.

Torço para que os dias entediantes acabem logo, mas sem que isso deixe a cidade caótica por demais. Ficarei atento para não me sentar em mesas ocupadas e entregarei sorrisos e gentilezas para as pessoas sem esperar que isso ocorra de volta. Falta de pauta, falta de gentileza, falta de sentido. Seria tudo mais fácil se fosse apenas falta de machismo...

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais.

Agostine Braga é professor de literatura e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

Foto: Agostine Braga