OPINIÃO: A violência e a criminalidade da menoridade

O texto do jornalista Caio Machado disserta sobre os incidentes recentes envolvendo menores infratores em Patos de Minas.

Caio Machado
17/11/2016 - 16h26

OPINIÃO: A violência e a criminalidade da menoridade

Quando eu tinha quinze anos eu só pensava em videogames, rock and roll e outras trivialidades. Não via a hora de sair das aulas de violão erudito e aprender a tocar guitarra. Na escola eu era um aluno bem meia boca, mas já fazia ideia do que queria fazer na faculdade. O mais perto que eu chegava da criminalidade era jogando GTA...

Quem iria imaginar que um jogo chamado “Grand Theft Auto”, ou em bom português, Grande Ladrão de Automóveis, iria se tornar o jogo mais famoso do mundo? Eu me sentia um bad boy por ter acesso a um jogo restrito ao público adulto. Minha vida acabava diversas vezes durante a jogatina. Eu era explodido, atropelado, incinerado, esmagado ou simplesmente preso pelos polícias. Para “ressuscitar” era preciso apenas esperar que o jogo carregasse de novo.

Eu também tinha a opção de jogar outros videogames. E qual eu escolhia? Justamente o Counter Strike. Eu sempre jogava como contra-terrorista. Era o velho jogo de polícia contra ladrão. A sofisticação da criminalidade estava na possiblidade de jogar como terrorista e ter acesso aos famigerados rifles russos AK47. Percebem a fetichização da violência no mundo virtual?

Nessa idade eu também adorava cinema. Meus filmes favoritos sempre foram os de super-heróis, faroeste, ação, policiais, etc. Tudo que envolvesse explosão, tiro e sangue, era comigo mesmo. Quentin Tarantino era meu herói. Não é de hoje que a violência se tornou o entretenimento favorito da sociedade. E o que dizer da imprensa? Simplesmente não sobreviveríamos sem sangue.

Parece que foi ontem que assistimos a jornalista do SBT, Rachel Sheherazade, proferindo o famoso discurso fomentado pela polêmica afirmação “Está com pena? Adote um bandido”. O ano era 2014, e o que era pra ser apenas uma fala conservadora, viralizou e tornou-se um dos motes percussores da eterna briga entre lados que se consolidou nas redes sociais.

Em exemplo do que a âncora do canal do eterno Silvio Santos sugeriu, tivemos o recente caso do menor de idade assassinado por um agente penitenciário em Patos de Minas. Tudo aconteceu de forma muito breve. O furto, o susto, o disparo. Em seguida, o longo debate nos portais de notícia da cidades, rapidamente assemelhou-se ao curioso e lastimável comportamento que ocorre no campo de comentários do G1, famoso pelas exorbitantes e ultrarradicais reações.

Numa rápida análise, poderíamos dizer que o garoto em seus poucos quinze anos de existência já atuava como uma mente criminosa pela nossa cidade. Em sua ficha ostentava dez passagens pela polícia, por nada menos do que furto. Na descrição do perfil do Facebook, o menino exibia a frase constantemente avistada e vulgarizada em pichações de muros pela cidade: “ei polícia, maconha é uma delícia”. Fica difícil acreditar que alguém teria coragem de adotá-lo né?

O debate intenso nos sites de notícias e redes sociais pendia para ambos os lados. Alguns tratavam o agente penitenciário como herói e almejavam por condecorações no mesmo naipe das concebidas aos militares norte-americanos que tomam de cabo de criminosos. Outra turma repetia exaustivamente que “bandido bom é bandido morto” e por aí vai. Do outro lado, alguns julgavam que o agente agiu de forma precipitada e prestavam orações pela família do menino, que teve a vida ceifada durante a tentativa do furto da motocicleta.

O agente teve a vida destruída também. O que seria um simples orçamento de uma piscina, para uma futura vida em família que se constituiria a partir dali, foi destruído pelo trágico incidente. Levando consigo um casamento iminente e semeando um trauma que durará pelo resto da vida do cidadão. Eu consigo entender que ele agiu de forma heroica e instintiva, de forma a defender a defender a vida alheia - pois o menor fez menção que iria atirar contra as vítimas, mesmo estando desarmado - e ainda após o ato, o agente tentou como pode reanimar o menino. Um ato sem êxito, mas que não ocorreu em vão.

Recordo-me novamente de quando eu tinha quinze anos. Eu sequer sabia guiar uma motocicleta. Não era dos mais sonhadores, mas conseguia levar uma vida satisfatória e digna pela estrutura e carinho oferecida pelos meus pais. O assunto não é nem mais a respeito de adoção de criminosos e sim de ausência paterna e materna. Onde estavam os pais desse menino? Por que não o mantiveram em rédeas firmes e primaram na educação do mesmo?

Hoje a história quase se repetiu e outro menor de idade foi detido por cometer um crime. Uma fisioterapeuta foi assaltada por um garoto de 14 anos portando uma réplica de revólver 38. Após avistar o menino no camburão de uma viatura da Polícia Militar, a moça que havia sido lesada pelo menor infrator conseguiu sentir certo afeto ou compaixão, e simplesmente o perdoou.

São coisas inexplicáveis. Esse tipo de afeição, se aplicada corretamente a um filho, evitaria que o mesmo seguisse pelas vias da criminalidade. Eu queria crer que o acompanhamento dos pais já seria o suficiente para que novos exemplos como estes deixassem de surgir em nossa sociedade. Porém o buraco é mais embaixo. A criminalidade não é apenas uma questão socioeconômica e eu não me sinto nada preparado para argumentar sobre as causas de tal comportamento.

Novamente voltando ao debate ocorrido na internet, cito como exemplo o último episódio da série britânica Black Mirror, que faz uma fria alusão as consequências geradas pela intolerância nas redes sociais. Em “Odiados pela nação”, uma dupla de detetives precisa descobrir o autor de assassinatos em série, que são motivados pelo nível de ódio declarado a pessoas por meio do Twitter. O indivíduo que for mais mencionado com a hashtag #DeathTo, será irremediavelmente assassinado por abelhas robóticas às 17h de cada dia corrido.

O enredo distópico da série seria surreal demais fora da ficção, mas depois do que presenciei nos comentários a respeito do garoto que foi morto durante o furto, não duvido que a incitação de ódio da sociedade alcance tal patamar futuramente. Vi centenas de pessoas desejando a morte de bandidos e louvando o acontecimento. A lógica que sigo é: cometer crimes é algo absurdamente errado, e quase sempre é motivado e consumado pelo uso de violência. Remediá-lo com mais violência seria a solução?

Essa discussão nunca terá fim. Muitos dirão que eu defendo criminosos e provavelmente sugerirão que eu adote bandidos. Outros aparecerão com questionamentos do tipo “e se fosse seu filho praticando o crime”, blá blá blá. Não tem pra onde fugir e eu não culpo e julgo ninguém. Temos o direito de nos expressar, suprimir isso seria uma forma de violência. O que eu tento discorrer com este texto é: Pesem e ponderem suas palavras. Não transformem um debate sobre violência em ainda mais violência.