Maneiras de lidar com a vida e a morte

A crônica de hoje é pautada nas perdas familiares e tragédias que causam grande comoção social, como o avião acidentado na Colômbia com o time da Chapecoense.

Caio Machado
29/11/2016 - 14h56

Maneiras de lidar com a vida e a morte

Perdi meu avô paterno no último domingo. Quem diria que o velhinho chegaria aos noventas anos e conheceria dois bisnetos? Coloquei na minha cabeça que o terceiro bisneto, que já está a caminho, e ele infelizmente não conhecerá, renovará o ciclo e nos trará vida nesse momento melancólico.

Não vai ser numa breve crônica que descreverei e homenagearei o meu avô da forma devida. Além de ser algo muito íntimo, não interessaria a praticamente nenhum leitor, exceto os que o conheceram em vida. Infelizmente eu também não posso continuar esse texto, sem me referir mais tarde, a outra tragédia ocorrida nesta madrugada.

Por volta das quatro horas da tarde do domingo em que meu avô faleceu, eu aguardava pelos preparativos do velório assistindo TV com alguns de meus primos. Pra distrair a cabeça, eles se concentravam na partida que definiria o vencedor do campeonato brasileiro deste ano. Se o Palmeiras vencesse ou empatasse com a Chapecoense, automaticamente obteria o título.

Nunca gostei de futebol e fiquei mais interessado em saber que meu avô torcia tanto pelo Cruzeiro, quanto pelo Palmeiras. Meus primos sempre foram fanáticos pelo time do porco e a afirmação de que meu avô torcia pelo Palmeiras parecia para mim, uma tentativa do velhinho de querer agradar a todos os netos.

Não permanecemos na casa de meus avós para assistirmos ao jogo inteiro, mas fomos alertados da vitória do Palmeiras por alguns torcedores que comemoravam a vitória fazendo baderna pelas ruas da cidade, inclusive em frente ao velório... Esse texto poderia discutir apenas essa questão: até quando é certo incomodar as pessoas para comemorar algo? Mas não importa...

Hoje acordamos com a trágica notícia de que o avião que transportava uma equipe de futebol brasileira até a cidade de Medellin, na Colômbia, havia acidentado na cidade de La Unión. A aeronave estava ocupada por jornalistas, tripulantes e a delegação do time catarinense Chapecoense, não por acaso, o mesmo time que jogava contra o Palmeiras no domingo.

No dia em que meu avô faleceu, os questionamentos sobre vida e morte afloraram meus sentidos e numa breve crise existencial pude analisar, com pouca clareza, que estamos na Terra por alguns motivos. E uns destes motivos são basicamente apoiar, confortar, estar presente, se preocupar e amar as pessoas ao seu redor.

É um baita clichê. E a vida e a morte também são. Ninguém sabe o que dizer para as pessoas quando familiares e pessoas próximas falecem. Na contramão disso, todo mundo sabe que devemos amar e nos importar com os próximos. Poucos o fazem. Isso está impresso na Bíblia por pelo menos dois mil anos e você não precisa sequer acreditar em Deus pra praticar.

Dois dias atrás, quando perdi meu avô, tive a excêntrica oportunidade de ser confortado, num breve momento, por uma pessoa até então desconhecida em minha vida. Quantas pessoas que vocês conhecem que se predispuseram a locomover-se até o velório de um desconhecido e prestar condolências para outro desconhecido? Quantos de vocês já fizeram isso?

Numa tragédia como esta da Chapecoense, o país e o mundo inteiro tendem a se comover e de certa forma, as pessoas passam a agir desta mesma maneira. Claro que o clamor público acontece por se tratar de um time de futebol em ascensão, com o peso da relevância social dos esportistas, jornalistas, etc. que estão frequentemente perante holofotes da mídia.

Não estou dizendo que isso seja algo ruim, mas temos a tendência de nos mostrar solidarizados por pessoas em situações como estas e nos esquecemos de valorizar quem está ao nosso redor. É outro enorme clichê ao qual somos constantemente acometidos, mas seria ainda pior se a sociedade não se importasse com as vítimas desta e de outras tragédias.

No fim de tudo, a situação soa como um grande egoísmo de nossas partes. Parece até que precisamos mostrar para os demais o quanto nos preocupamos com as pessoas, para que certo valor de bom samaritano seja agregado à nós mesmos. E isso fica ainda mais evidenciado e intensificado nas redes sociais. Estou generalizando, mas isso acontece o tempo todo!

Durante o velório de meu avô, num lapso de egoísmo, cheguei a me sentir mal por notar que pessoas com quem eu me importo, não tinham ido prestar condolências a mim, mas era eu quem deveria estar fazendo isto pelos meus familiares. Por sorte, percebi isto a tempo, e por incrível que pareça, isto só ocorreu graças a uma pessoa desconhecida!

Vida e morte se contrastam diariamente. É a nossa sina: viver e morrer. Não temos escapatória. O grande diferencial está na forma com que lidamos e acrescentamos significado a isto, na maneira de como conseguimos transmitir coisas boas a quem está ao nosso redor.

Perdemos os ocupantes da aeronave na Colômbia, perdi o meu avô. Não podemos perder mais ninguém em vão. Machado de Assis uma vez disse que se alguma pessoa está morta podemos elogiá-la a vontade. Eu diria que não precisamos esperar que as pessoas morram para elogiá-las.

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais.

Agostine Braga é professor de literatura e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/