Quem dá nome às ruas de Patos de Minas?

A primeira crônica escrita em 2017 pelo jornalista Caio Machado conta um pouco da história das personalidades que foram homenageadas nos endereços de Patos de Minas.

Caio Machado
10/01/2017 - 13h54

Quem dá nome às ruas de Patos de Minas?

O patense, pelo menos uma vez na vida ao transitar pelas ruas Olegário Maciel ou Olympio Borges, deve ter se perguntando quem diabos foram esses caras e por que temos tantos membros dessas tais famílias Maciel e Borges nomeando os endereços de Patos de Minas.

Graças a meu pai, tive acesso à segunda e à terceira edição do livro “Logradouros Públicos de Patos de Minas”, do professor Júlio César Resende, escrito respectivamente nos anos de 1998 e 2005. A obra possui um glossário sobre as pessoas que dão nomes às praças, ruas e avenidas de Patos de Minas. Praticamente todos os endereços da cidade estão listados no livro!

Antes de citar algumas destas personalidades que achei interessantes ao conhecimento do leitor, preciso contextualizar que as duas famílias citadas no primeiro parágrafo brigavam feito cão e gato em Patos de Minas. Em consulta a alguns artigos descobri que a disputa dos Macieis e Borges perduraram por décadas no campo ideológico e político da cidade.

Pouco se sabe sobre a origem das famílias, porém os Macieis chegaram primeiro e sempre levaram a melhor. Até certa altura não eram incomodados pelos Borges, que com o passar do tempo foram ganhando força na política e no comércio. A rivalidade era tamanha e facilmente se assemelharia com histórias de jagunços e fazendeiros da literatura brasileira.

A rixa ocorria em praticamente todos os setores, inclusive no religioso. Os Borges eram predominantemente católicos e foram extremamente importantes para a construção da Catedral de Santo Antônio. Do outro lado, boa parte dos Macieis, inicialmente católicos, converteram-se ao protestantismo após a adesão de Antônio Dias Maciel.

O mais interessante de tudo é que a briga influenciou até na rivalidade dos times de futebol da cidade, que foram praticamente fundados pelas duas famílias. A União Recreativa dos Trabalhores (URT) era vinculada diretamente aos Macieis e o Esporte Clube Mamoré aos Borges!

Começarei citando alguns dos membros mais relevantes da família Maciel:

 

Antônio Dias Maciel: nascido em Pitangui no ano de 1826, mudou-se para a cidade em 1857. Foi fazendeiro, juiz, Presidente da Câmara e instalou a primeira comarca de Patos de Minas. Dá nome ao Hospital Regional e à conhecida e agitada “Praça do Antares”.

Olegário Dias Maciel: filho de Antônio Dias Maciel, Olegário nasceu em Bom Despacho no ano de 1855. Dirigiu o munícipio de Patos de Minas entre 1883 a 1886. Em seguida foi vice-presidente de Minas Gerais entre 1922 e 1926. Após participar da revolução que elevou Getúlio Vargas à Presidência da República, foi eleito Presidente de Minas Gerais no ano de 1930, onde permaneceu até a sua morte em 1933. Além de dar nome à famosa rua da cidade, também batizou nosso município vizinho, Presidente Olegário.

Major Gote: o nome da rua mais importante da cidade homenageia ninguém menos que Sesóstris Dias Maciel, irmão de Olegário. Nascido em solo patense no ano de 1864, Sesóstris foi vereador, delegado de polícia e Presidente da Câmara. Seus feitos mais notórios incluem trazer o primeiro carro para a cidade, a segunda bicicleta, instalar 70 aparelhos de telefone urbano no município e construir a ferrovia Patos-Catiara em 1916. Entretanto, somos os únicos mineiros que perderam o trem e esta ferrovia nunca saiu do planejamento...

Além dos Macieis citados acima, diversos outros membros desta família nomeiam os endereços da cidade. Para tentar facilitar, citarei apenas os laços familiares entre alguns deles: Antônio Dias Maciel também era pai de Farnese Maciel, que por sua vez era pai de Olinto Maciel e do Dr. Antônio Dias Maciel, que recebeu o mesmo nome do avô. Já o Major Jerônimo Dias Maciel era irmão de Antônio Dias Maciel e pai de Atualpa Dias Maciel.

Vamos parar por aqui, pois já está ficando bastante confuso. Passemos agora para os Borges:

 

OIympio Borges: nascido em Formiga no ano de 1864, atuou em Patos de Minas como professor, jornalista e advogava mesmo sem graduação. Exerceu brevemente na política entre os anos de 1893 a 1902, porém preferiu dedicar-se aos tribunais. Sucedeu o pai José Antônio como titular do cartório do 1º Ofício e manteve-se à frente do cargo por trinta anos. A dedicação de Olympio Borges era tanta que ele foi homenageado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, emprestando o nome ao Fórum de Patos. Além disso, Olympio também dá nome a rua que liga o centro ao Bairro Lagoa Grande.

Deiró Eunápio Borges: patense nascido no ano de 1880, cursou Humanidades em seminários de Uberaba e Diamantina. Na cidade, mesmo não sendo graduado em Direito também exercia advocacia. Provavelmente foi o mais ilustre e relevante membro da família Borges. Em 1924 fundou o Partido Político Popular de Patos (PPPP). O primeiro partido da cidade foi decisivo na consolidação dos Borges no cenário eleitoral. Dá nome à rua situada no centro e a escola estadual no Bairro Sebastião Amorim.

Dr. João Borges: nasceu em Patos de Minas no dia 1º de setembro de 1886. O segundo médico a ser formado da cidade, cursou Medicina e Farmácia no Rio de Janeiro, doutorando-se em Pediatria. Foi vereador entre os anos de 1947 a 1962. Fundou a Sociedade Recreativa Patense e, ao lado de Monsenhor Fleury, trouxe o Colégio Marista para a cidade. Foi homenageado na rua do Bairro Nova Floresta e dando nome a um edifício da Rua Major Gote.

Ficam de fora diversos outros Borges que emprestam os nomes para outras ruas e avenidas, como por exemplo: Dr. José Olímpio Borges, Alfredo Borges, Álvaro Borges, Dr. Afonso Corrêa Borges, Dr. Dolor Borges, Dr. Theofredo Borges, Getúlio Borges, Maestro Augusto Borges, etc. Hoje em dia, ambas as famílias dissolveram-se entre os Caixetas, Queiroz e diversos outros sobrenomes da cidade, porém a história ainda está escrita em nossos endereços.

Resumi outros nomes relevantes dos logradouros de Patos de Minas:

 

Doutor Marcolino de Barros: o baiano nascido em Jaguariri no ano de 1870 é um dos responsáveis pela aceleração e crescimento de Patos de Minas. Como presidente da Câmara (1914-1918 e 1926-1930) trouxe água canalizada, construiu o primeiro grupo escolar (que por acaso leva o próprio nome), remodelou as ruas e iniciou a construção da primeira usina hidrelétrica da cidade. Era proprietário e redator no jornal “Cidade de Patos”, rodado de 1915 a 1918. Dá nome ao colégio e a uma das principais ruas, que até certo ponto se chama Tiradentes, homenageando o inconfidente mineiro Joaquim José da Silva Xavier.

José de Santana: patense nascido em 1874, foi fazendeiro, juiz, promotor, delegado e vereador. Agitou a cidade com a sétima arte, quando foi proprietário do Cine Glória, por cerca de vinte anos. Os terrenos onde foram construídos o Hospital Regional Antônio Dias, a Escola Estadual Marcolino de Barros e o matadouro municipal foram doados por José de Santana.

Fátima Porto: a moça que homenageia esta longa avenida nasceu no Distrito de Chumbo no ano de 1953. Tragicamente, a estudante faleceu aos 17 anos num acidente de trânsito.

Dona Luiza Corrêa de Andrade: Patos de Minas homenageia várias donas: Nhá, Lica, Fioca, Queta e por aí vai. Escolhi Luiza por ela ser filha do casal de moradores José Corrêa de Andrade e Rosa Dias de Oliveira, provavelmente os moradores mais antigos da cidade. Luiza foi casada com Antônio Joaquim da Silva Guerra, que também recebeu uma rua com seu nome. O comerciante Silva Guerra doou a Santo Antônio o patrimônio no qual está situada boa parte da cidade de Patos de Minas.

 

Além da história de Patos de Minas, diversas outras podem ser averiguadas por meio de nossos endereços e construções. Quando nos referimos às avenidas Getúlio Vargas e JK, fica fácil saber que as mesmas homenageiam os mais populares Presidentes da República que já tivemos. Até o finado papa italiano João XXIII virou nome de rua e biblioteca municipal!

Nem tudo são flores. Como fui alertado pelo meu pai, historiador ávido e atento, a antiga Rua Castelo Branco passou a se chamar recentemente de Rua Vereador Adalto Antônio Gonçalves. O motivo? Humberto de Alencar Castelo Branco foi o primeiro presidente da República a assumir o cargo após o golpe militar de 1964. O tirano e diversos outros deixaram de ser homenageados por terem sido ditadores.

O irônico é que Getúlio Vargas, que mesmo por todos os méritos de seu longevo governo e tamanha popularidade, também era um ditador. E como é de conhecimento da nação, não deixou de dar nome a nenhuma rua do Brasil... Eu não conheço praticamente nenhuma cidade do país que não tenha uma rua ou avenida com o nome do “pai dos pobres”...

Até um dos membros de minha família foi homenageado e recebeu uma rua com seu nome na cidade. Meu falecido padrinho Rômulo Marcos de Oliveira dá nome a uma rua no Bairro Ipanema, desde outubro de 1994. Ele não foi presidente, juiz ou nada do tipo. Foi apenas o proprietário da Pizzaria Aeroporto, provavelmente o primeiro restaurante do tipo a existir na cidade.

E você caro leitor, possui alguma história para contar que envolva as ruas e avenidas da cidade? Sinta-se a vontade em nos contar. Quem sabe alguns de vocês não serão os próximos a serem homenageados em meio a nossos logradouros?

 

SAIBA MAIS:

- 124 anos de Patos de Minas

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Agostine Braga é professor de literatura e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto

Foto: Agostine Braga
Correção e colaboração: José Eduardo de Oliveira