Desigualdade: um assunto mais amplo do que parece

O Patos Notícias conta agora com a nova coluna “Ciência e Comportamento”, redigida pelo psicólogo Esequias Caetano. No primeiro artigo, o tema abordado é a desigualdade social.

Esequias Caetano
01/02/2017 - 09h49

Desigualdade: um assunto mais amplo do que parece

A maioria das pessoas, quando fala ou ouve falar sobre “desigualdade” pensa na “desigualdade de oportunidades”.  A desigualdade de oportunidades é aquela em que nem todos tem acesso à educação de qualidade, a remuneração justa, a recursos equivalentes de cuidados com a saúde, a condições dignas de moradia e segurança, entre outras coisas.

De fato, existem diferenças gritantes no quanto as classes sociais diferentes tem a possibilidade de usufruir de serviços de qualidade. Quem não tem dinheiro para pagar uma boa escola, por exemplo, acaba não conseguindo usufruir de recursos capazes de acelerar e ampliar o aprendizado, como laboratórios, computadores de alta qualidade, monitorias, acompanhamento de professores particulares ou material extra.

Uma análise mais minuciosa do assunto, porém, revela que o acesso igualitário a oportunidades é apenas uma das peças do complexo quebra cabeça da “desigualdade”. O economista Anthony B. Atkinson, pesquisador Sênior do Nuffield College, da Universidade de Oxford e Professor Centenário da London School of Economics, se debruçou sobre o assunto em seu livro “Desigualdade: o que pode ser feito? ”, traduzido por Elisa Câmara e publicado pela Editora LeYa em 2016. Na obra ele explica que existe um segundo tipo de desigualdade: a “desigualdade de resultados”.

A desigualdade de resultados diz respeito especialmente às dificuldades enfrentadas após a pessoa ter tido acesso a oportunidades iguais. Diz respeito ao meio do caminho. Para o autor, ignorar esse tipo de desigualdade é problemático por três motivos. O primeiro deles é que por mais que as pessoas se esforcem muito, elas podem ter azar. É o que ocorre com um empreendedor que no meio do processo de crescimento de sua empresa desenvolve uma doença grave, passa por um divórcio conturbado, sofre um calote ou precisa enfrentar alguma outra intempérie que fuja a seu controle. Ele terá muito mais dificuldades para obter êxito do que outro que não enfrenta situações assim. É como se sua estrada fosse mais longa, mais esburacada e mais cheia de curvas que da outra pessoa. Obviamente seu trajeto é mais difícil. Seu tempo e esforço ficarão fracionados, menos focados em relação a alguém que precisa lidar com menos problemas.

O segundo motivo é que existem dois tipos de igualdade de oportunidade: a competitiva e a não competitiva. Na não competitiva todas as pessoas têm chances iguais de desenvolver seus projetos de vida e conquistar resultados equivalentes, e na competitiva, todos têm chances iguais apenas de tentar. Quando não há competição o esforço feito por duas pessoas diferentes pode gerar resultados equivalentes, e quando há, por mais que ambas se esforcem igualmente, é impossível isso acontecer.

Desigualdades como estas são facilmente identificáveis no mundo empresarial e acadêmico. Estão presentes, por exemplo, quando dois candidatos a um emprego com a mesma formação, a mesma experiência e as mesmas competências disputam uma vaga para a qual só um deles será selecionado. Por mais que ambos se esforcem, um está fora. Um não recebe o “prêmio”, a contratação, seja por azar ou por outros tipos de condições: preferências pessoais do selecionador, indicação ou outros motivos.  O fato é que quem ficou de fora sofrerá, no mínimo, com o acúmulo de contas a pagar, com o desgaste emocional e social por não estar trabalhando, com a limitação no acesso a recursos como saúde, educação e lazer de qualidade, apenas para ficar em uns poucos exemplos. O acumulado desse prejuízo não afeta apenas suas condições de concorrer em oportunidades futuras, mas também, seu foco, já que os problemas ligados ao desemprego se acumulam. E o mesmo raciocínio se aplica a outras situações.

O terceiro motivo é que a desigualdade de resultados de uma geração afeta diretamente a geração seguinte. Pessoas que hoje foram menos afetadas pelas intempéries que fugiam a seu controle e conquistaram resultados melhores com seu esforço acabam acumulando uma quantidade maior de dinheiro, conforto e outras condições ao longo da vida, e consequentemente, transferem isso a seus filhos futuramente sem que esses filhos precisem fazer qualquer esforço para tanto. Com mais dinheiro, esses filhos têm acesso a escolas melhores, a recursos mais modernos de cuidados com a saúde, entre outras coisas, além de sofrerem menos com o desgaste da luta para “vencer na vida”. Consequentemente, não apenas partem de condições mais favoráveis para conquistar seus objetivos, mas também “entram na luta” melhor preparados (educação melhor, saúde melhor, etc).

Quando esses três tipos de desigualdade de resultados se combina com a desigualdade de oportunidade e com características pessoais que podem frear o crescimento econômico da pessoa, o problema se torna ainda maior. Quem tem uma sensibilidade maior à depressão, a transtornos de estresse ou a outros tipos de desregulação emocional naturalmente sofre mais com as pedras no caminho. A Depressão, por exemplo, é a principal causa de incapacitação da atualidade.  

Falar de desigualdade, portanto, não significa falar apenas de oportunidades desiguais. Significa, isso sim, considerar um conjunto muito amplo de condições que podem favorecer ou dificultar para que cada pessoa consiga conquistar seus sonhos. O problema maior é que, no Brasil, sequer temos igualdade de oportunidades e, muito menos, de resultados – nos termos já discutidos.

 

Esequias Caetano é Psicólogo (CRP 04/35023) especialista em Psicologia Clínica. É sócio diretor da Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento, onde atende adultos individualmente e em casais.