O lado negro da internação para dependentes químicos

Após os escândalos recentes ocorridos em clinicas de internação em Coromandel e Patrocínio, Esequias Caetano discute os riscos envolvidos na internação de dependentes químicos *.

Esequias Caetano
15/02/2017 - 10h59

O lado negro da internação para dependentes químicos

Não faz muito tempo que o noticiário trouxe à tona os crimes cometidos pelos funcionários de duas clínicas de internação para Dependentes Químicos sediadas em cidades próximas a Patos de Minas. Na primeira, em Coromandel, a equipe e a direção da instituição mantinham os internos em cárcere privado e os submetia a tortura física e psicológica como forma de punição a pequenas infrações às regras do local. Na segunda, em Patrocínio, a situação era mais grave. Além do cárcere privado e tortura, os usuários recebiam alimentos estragados e chegaram a sofrer ameaças com arma de fogo. Mais informações sobre estes casos específicos podem ser encontradas nas referências do texto, em [1] e [2].

Mas esses exemplos não são isolados. Situações abusivas envolvendo clínicas de internação para dependentes químicos são notícia com frequência em todo o país. Um artigo [3] publicado no site ConJur (Consultor Jurídico) dá destaque ao tema, informando que, no Brasil, são raras as clínicas que seguem as leis que tratam da proteção à dignidade e integridade dos internos. Maus tratos, desrespeito e abuso são a regra.

O relatório da 4ª Inspeção Nacional de Direitos Humanos: locais de internação para usuários de drogas, publicado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) [4], apresenta a mesma conclusão. Uma comissão montada pelo CFP visitou 64 clínicas em 24 estados brasileiros e no distrito federal, e na grande maioria delas, foram identificadas situações graves de infração à lei. Entre os principais problemas encontrados, estão a situação precária da estrutura física das instituições; o uso de mão de obra não remunerada; a violação de correspondência e da privacidade dos internos; a violação do direito de comunicação dos usuários da clínica com seus familiares; o desrespeito ao credo religioso ou à ausência de credo; a presença de adolescentes e adultos, mulheres e homens no mesmo espaço físico; prática de isolamento como forma de punição; impedimento do acesso aos medicamentos de uso necessário e desrespeito à diversidade sexual, além do armazenamento inadequado de alimentos e indisponibilidade de profissionais da saúde para prestarem assistência aos usuários do serviço.

É possível supor que, na maioria dos casos, as famílias sequer fazem ideia destas barbáries. Crentes de que as instituições estão oferecendo o melhor aos internos, não tomam qualquer atitude em sua defesa. As razões para tanta inocência são óbvias. A primeira, e talvez mais importante, é o desespero e o sofrimento em que essas famílias se encontram. Os familiares de um dependente químico geralmente já estão sem forças para lutar e veem a internação como a única saída. Nesse caso, se agarram o mais rapidamente possível à oportunidade que surgir.  Isso é compreensível, afinal, nesse ponto a situação normalmente já está insustentável. A segunda, mas não menos importante, é a propaganda. Ansiosos para aliviar aquela dor e buscar uma solução para o problema, se decidem sobre qual clínica internar o ente querido tomando como referência apenas a “lábia” do responsável pela instituição e, no máximo, uma ou outra referência “boca-a-boca” que também só sabe aquilo que os diretores da organização, a equipe ou profissionais vinculados a ela disseram.

É comum, por exemplo, que os membros da equipe de uma clínica de internação supervalorizem a eficácia da internação, defendendo-a com unhas e dentes. Talvez isso aconteça inclusive nos comentários deste texto. Eles afirmam cabalmente que é o único – ou o mais eficiente – método de tratamento para a dependência química. Ignoram, por exemplo, que as pesquisas sobre o assunto trazem dados bastante conflitantes sobre o quanto a internação realmente funciona. Muitos estudos indicam que ela é ineficaz, e ao invés de contribuir para a melhora do paciente, levam a um agravamento do quadro. Outros sugerem que ela é eficaz e realmente capaz de levar um dependente químico à abstinência. Pouco se fala, no entanto, da necessidade de uma avaliação caso-a-caso, único método realmente capaz de apontar o melhor tratamento para cada pessoa.

A avaliação deve ser feita por um psicólogo ou um psiquiatra especializado em dependência química, ou ao menos, com bastante experiência na área. Idealmente o profissional deve ser independente – ou seja, sem qualquer tipo de vínculo com absolutamente nenhuma clínica de internação. Explico: profissionais vinculados a clínicas de internação podem se beneficiar de alguma forma (R$) das internações que recomendam. Por outro lado, profissionais não vinculados menos provavelmente tem motivos ocultos para sugerirem internações desnecessárias. Mas mesmo com esse cuidado, ainda existe outro problema: um profissional não vinculado pode, simplesmente, adotar uma posição ideológica contrária à internação. Nesse caso ele deixaria de recomendar um tratamento por motivos pessoais e não por razões vinculadas à avaliação que fez do paciente. A alternativa que sobra, portanto, é se informar o quanto for possível sobre o assunto, sobre a clínica e sobre a situação da pessoa que se deseja internar. Pode ser útil, inclusive, ouvir a avaliação de mais de um profissional da área.  Buscar por uma segunda opinião profissional é um direito inalienável de qualquer pessoa.

 

[1] Pacientes supostamente torturados são resgatados de clínica de reabilitação de Coromandel

[2] Clinica de reabilitação é fechada pela Polícia Militar de Patrocinio

[3] Poucas clínicas seguem rigorosamente a lei

[4] Relatório da 4ª Inspeção Nacional de Direitos Humanos: locais de internação para usuários de drogas

 

Esequias Caetano é Psicólogo (CRP 04/35023) especialista em Psicologia Clínica. É sócio diretor da Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento, onde atende adultos individualmente e em casais.

 

* O texto acima não representa a opinião do portal Patos Notícias; a responsabilidade do mesmo é atribuída ao autor do texto.