Depressão é uma das principais causas de incapacitação: fique atento aos sinais

Nesta semana na coluna “Ciência e Comportamento”, o psicólogo Esequias Caetano debate sobre a depressão, um dos transtornos mentais mais preocupantes da atualidade.

Esequias Caetano
01/03/2017 - 21h21

Depressão é uma das principais causas de incapacitação: fique atento aos sinais

Na última semana a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório com os resultados de um estudo que apontou o Brasil como o país com maior número de pessoas depressivas em toda a América Latina. De acordo com os dados, cerca de 11,5 milhões de brasileiros sofrem com a Depressão, o que corresponde a 5,8% da população nacional [1].

A quantidade pode parecer pequena se nos prendermos ao número absoluto, mas para efeito de comparação, ele é 13 vezes maior que o de portadores de HVI [2] [confira o gráfico ao final do texto na Figura 1].

Apesar disso, não há nenhum tipo de programa de saúde pública voltado à Depressão. A falta de atenção dedicada ao tema demonstra não apenas negligência das instituições de saúde para com o transtorno, mas principalmente, um traço da cultura brasileira. Explico: o brasileiro médio dá pouca importância ao sofrimento emocional, acha que é frescura, besteira. As consequências disso estão aí, “na cara”: um número cada vez maior de pessoas vivendo vidas sem qualidade, incapazes de experimentar prazer, alegria, relacionamentos saudáveis; incapazes de viver sem algum tipo de dependência (química, de eletrônicos, emocional, do trabalho, etc); incapazes de trabalhar, estudar ou experimentar o mínimo de dignidade.

Não é por acaso que os transtornos mentais aparecem entre as dez principais causas de incapacitação no Brasil. A Depressão, especificamente, já é a maior causa de incapacitação entre as mulheres e a segunda maior entre os homens. Os transtornos por uso de drogas e álcool e a ansiedade também estão no ranking. A Enxaqueca, que em muitos casos tem entre suas determinantes condições psicológicas, também figura na lista [3] [confira a tabela ao final do texto na Figura 2].

O que podemos fazer, então?

Podemos – e devemos – ficar atentos aos sinais de Depressão e outros transtornos psiquiátricos, e claro, buscar ajuda quando for necessário. Hoje falarei da Depressão, mas em outras oportunidades abordarei os demais.

Um bom começo é saber a diferença entre a Depressão e a tristeza cotidiana. A tristeza faz parte da vida. É uma emoção humana natural. A Depressão, por sua vez, é um problema grave de saúde. Se formos bastante precisos, apenas um profissional qualificado saberá distinguir as duas de forma inequívoca, mas alguns sinais podem ser identificados por qualquer pessoa. A presença destes sinais indica a necessidade de buscar ajuda especializada.

- O primeiro sinal é o tempo. Enquanto a tristeza é passageira e não dura mais do que duas ou três semanas, a Depressão é persistente. Ela pode até se amenizar diante de situações alegres ou prazerosas, mas volta insistentemente e se estende por semanas e meses “a fio”.

- O segundo sinal é a presença de pensamentos autodepreciativos, como “sou um lixo”, “não valho nada”, “sou um peso para as pessoas” ou quaisquer outros em que a pessoa descreve a si própria de modo pejorativo. Eles não costumam aparecer na tristeza, por mais intensa que ela seja. Porém, são parte importante da Depressão.

- O terceiro sinal é a perda da capacidade de sentir prazer. Aquilo que antes era agradável aos olhos da pessoa, aquilo que antes ela gostava de fazer, perde o sentido. O mundo e as coisas do mundo deixam de ser interessantes, por mais que já tenham sido algum dia.

Na Depressão também são comuns os pensamentos suicidas, especialmente em casos mais graves. Eles não aparecem quando o que é sentido é uma tristeza cotidiana. Se eles existirem, a necessidade de buscar ajuda é ainda mais urgente.

Qualquer pessoa que identificar um ou mais destes sinais deve procurar por um psicólogo ou um psiquiatra o mais rápido possível. Se não conseguir pagar por um atendimento particular, existem algumas alternativas: as clínicas de psicologia das Faculdades da cidade, onde os atendimentos são realizados por estudantes de psicologia supervisionados por seus professores; o serviço público de saúde (SUS) ou a clínica popular do município ou, em caso de emergência, o Amigos da Vida, através do telefone 141.

 

Bio:

Esequias Caetano é Psicólogo Clínico (CRP 04/35023), especialista em Psicologia Clínica (ITCR/ Campinas, SP) e com formação em Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Analítico-Funcional (Instituto Continuum/ Londrina, PR). É sócio da Clínica Ello (www.ellopsicologia.com.br), onde atende adultos em terapia individual e de casais.

 

 

[1] Brasil é o país mais deprimido da América Latina, aponta OMS

[2] Estatíticas - UNAIDS Brasil

[3] Novo século, novos desafios: mudança no perfil da carga de doença no Brasil de 1990 a 2010