Sete vícios que atrapalham a paquera

Redigido por Esequias Caetano, o artigo do “Ciência e Comportamento” dessa semana trás dicas valiosas sobre como não se portar durante o ato da paquera.

Esequias Caetano
17/03/2017 - 16h03

Sete vícios que atrapalham a paquera

A maioria dos adolescentes enfrenta dificuldades na paquera, ao menos nas primeiras tentativas. Boa parte dessa dificuldade vem da ausência de modelos de comportamentos úteis para a situação, de valores culturais inadequados e, obviamente, da falta de experiência típica da fase. Aos poucos, porém, ao menos a maioria deles vai se tornando mais habilidosa. As estratégias mais eficazes vão sendo repetidas e aperfeiçoadas, e as menos eficazes, descartadas. Ainda assim alguns “vícios comportamentais” permanecem e continuam a gerar problemas. Falarei sobre eles hoje.

1 – Desrespeitar o direito do outro de dizer “não”.

Esse é um dos principais e mais prejudiciais vícios. Mais comum entre os homens, consiste em “forçar a barra”, seja usando a força física ou recursos verbais, como chantagem emocional, insistência, ameaças ou quaisquer outros – inclusive “embebedar” a outra pessoa para que ela “facilite”. Em alguns casos a atitude não é apenas desrespeitosa, mas criminosa. O “não” é soberano e precisa ser respeitado. Se há interesse em continuar tentando apesar do “não”, que as tentativas sejam respeitosas e criativas. Basicamente isso significa se tornar mais atrativo e interessante para a outra pessoa ao invés de tentar força-la a alguma coisa. A atratividade pode ser aumentada com um “papo” interessante, investindo na própria aparência física, criando um clima de descontração, etc. Use a criatividade.

2 – Abordar com perguntas ou afirmações clichês

Ainda que seja difícil definir o que é e o que não é clichê, na prática vale investir na criatividade. Aquelas frases que todo mundo diz, como “oi, posso te conhecer?”, “cachorrinho tem telefone?”, entre outras do gênero, precisam ser evitadas. Usá-las demonstra, no mínimo, falta de habilidade para paquerar. A melhor forma de elaborar uma abordagem é observando o contexto: o que está acontecendo no local, o que a outra pessoa está fazendo, algum fato ocorrido no mundo, algum objeto, a atitude de uma terceira pessoa que esteja próxima ou qualquer outra coisa que possa ser acessada através dos sentidos. Essas “dicas” contextuais servem como ponto de partida para iniciar uma conversação.

3 – Fazer perguntas ou comentários fechados ao longo da conversa

Perguntas fechadas são aquelas que podem ser respondidas apenas com uma ou duas palavras. Comentários fechados são aqueles curtos, do tipo “legal a festa”, “tá quente hoje, né?” ou outros que não tem quase nenhuma informação sobre a opinião ou sobre os sentimentos do falante. O problema das perguntas fechadas é óbvio. Os comentários fechados são problemáticos porque uma frase com poucas informações fornece poucos elementos para que a outra pessoa dê continuidade à conversa. Se, por exemplo, a afirmação “legal à festa” for acompanhada de algum detalhe, como “eu não conhecia esse DJ, mas estou gostando bastante das músicas que ele coloca; e as bebidas são muito boas também, a minha preferida é esse coquetel de ameixa” as chances de que a outra pessoa também faça comentários mais longos são maiores. Em relação às perguntas fechadas, uma alternativa é dar preferência àquelas que começam com “como”, “o que” ou “por que”. Elas geralmente pedem mais informações do que apenas um “sim” ou um “não”.

4 – Não aceitar que o “fora” é o resultado mais provável

Salvo raras exceções, a maioria dos paqueradores coleciona mais fracassos do que sucessos. Chutando um número, é como se a cada 10 tentativas, apenas uma desse certo. Isso significa que é preciso tentar várias vezes e com várias pessoas diferentes. Desistir no primeiro ou no segundo “fora” é abrir mão de quase todas as chances que se tem.  

5 – Deixar que a ansiedade se transforme em uma barreira

Sentir ansiedade no meio de uma paquera também é absolutamente normal. A ansiedade não tem qualquer significado na situação. Ela não é uma demonstração de fraqueza, não é uma demonstração de incapacidade e nem nada do gênero. Ela é, apenas, uma emoção que faz parte daquela experiência. Algumas pessoas com autoconfiança bastante elevada ou que não se importam com os resultados das tentativas até conseguem não experimentar ansiedade, mas essas são minoria. A maior parte dos paqueradores apenas tenta escondê-la, e quem está em volta, de fato acredita nisso. Sendo a ansiedade uma emoção natural na paquera, a saída é paquerar apesar da ansiedade. Não deixe que ela se transforme em uma barreira.

6 – Mentir

Muita gente recorre ao recurso da mentira quando está paquerando. As mentiras mais comuns são sobre a idade, sobre riqueza/ dinheiro, sobre o nome e sobre onde mora. Embora a estratégia possa ser eficaz no curto prazo, ela é desrespeitosa à outra pessoa. Ninguém gosta de ser enganado.

7 – Beber para paquerar

Algumas pessoas dizem que “precisam beber para criar coragem”. De fato, a bebida reduz a inibição, mas essa prática tem outras consequências bastante danosas. A primeira delas é a destruição da autoconfiança. Alguém que não tenta paquerar “sóbrio” jamais aprenderá a confiar em si próprio. A segunda é a perda da oportunidade de treinar. Alguém que só paquera bêbado jamais irá aperfeiçoar as próprias habilidades – inclusive as habilidades de regulação emocional necessárias para lidar com a ansiedade –, e consequentemente, se tornará dependente do álcool para conseguir alguma coisa.

 

Esequias Caetano é Psicólogo Clínico, especialista em Psicologia Clínica com ênfase em Terapia Comportamental e formação nas abordagens comportamentais Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Analítico-Funcional. Atende adultos individualmente e em casais na Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento. Contato: ecaetano@ellopsicologia.com.br