O jornalismo de WhatsApp em Patos de Minas

O WhatsApp revolucionou a maneira de como as pessoas se comunicam. Esta crônica assinada por Caio Machado mostra como o aplicativo facilitou e prejudicou o jornalismo local.

21/03/2017 - 15h08

O jornalismo de WhatsApp em Patos de Minas

Nasci na década de 90 e lembro que minha infância foi regada de jornais e revistas. Volta e meia meu pai assinava a Folha de S. Paulo ou aparecia com algumas edições da revista Veja. De certa forma, esse desejo de consumir notícias foi moldando a minha personalidade para que no futuro eu me tornasse jornalista.

Durante minha infância, o jornalismo televisivo nunca me prendeu tanto e eu gastava meu tempo assistindo animações e programas de entretenimento. O que não me impedia de assistir, quase religiosamente, o Jornal Nacional. Até meus cincos anos de idade, pude presenciar a voz grave de Cid Moreira anunciando os acontecimentos do planeta.

A cultura da televisão e das bancas de revistas ainda era definitiva e crucial para ditar o comportamento e a moda daquela época. Em Patos de Minas, só existiam basicamente duas formas de se informar sobre os acontecimentos de Patos de Minas: ou por meio do jornal impresso “Folha Patense” ou pelo jornalismo no canal “NTV”.

Por ser semanal, o periódico impresso trazia “notícias velhas” e muita coluna social, já o canal de TV transmitia as matérias com um dia de atraso por serem ainda gravadas em VHS. Lembro-me de ficar muito bravo quando assistia Cocoricó ou Castelo Rá-Tim-Bum! na TV Cultura e a programação da NTV entrava  no ar, cortando o sinal e os programas pela metade.

O tempo foi passando e as novas tecnologias tornaram-se ferramentas facilitadoras para o jornalismo. Com exceção do SBT, praticamente todos os grandes canais criaram filiais na cidade e o VHS foi substituído pelo Mini DV, um formato de vídeo digital um pouco menos lerdo e mais prático.

A grande revolução viria com a popularização da internet. Em 2006 surgia o Patos Notícias, primeiro portal de notícias online de Patos de Minas, que no começo da trajetória, além de notícias, realizava também cobertura de festas e eventos da cidade. Muitos também ainda devem se lembrar da febre dos fotologs e do famoso site Oqrola.net.

Depois disso vieram os outros sites. O MSN foi tomando o espaço do ICQ, surgiram o Orkut e Myspace e de uma só vez o Facebook engoliu todos eles numa revolucionária plataforma que misturava o recurso de instant messenger com rede social. Após a chegada dos smartphones, surgia o aplicativo que mudaria tudo relacionado a forma de se comunicar: o WhatsApp.

Se o jornalismo impresso já dava sinais de estar sendo prejudicado pela facilidade e gratuidade de obter notícias online (pra não citar a pirataria que também promoveu mudanças em outros segmentos), o WhatsApp surgiria para modificar permanentemente a maneira dos jornalistas apurarem os fatos e entrarem em contato com as fontes da informação.

Afinal, para que locomover-se por diversos quilômetros se tudo estava ao alcance das mãos? Com a possibilidade de criar grupos, diversas pessoas decidiram reunir os amigos com o intuito de se informarem em primeira mão sobre acontecimentos da cidade. Inicialmente o foco eram os acidentes de trânsito e em seguida, qualquer multidão ou movimentação policial passou a ser noticiado no aplicativo.

Se já era praticamente impossível para que os jornais impressos conseguissem furos jornalísticos, a coisa começou a ficar feia até para as demais plataformas, sejam elas televisivas, radiofônicas e até mesmo virtuais. Até que os jornalistas conseguissem apurar todas as informações, tudo já havia sido repassado e viralizado pelo WhatsApp.

E como isso modifica o jornalismo feito em Patos de Minas? Em praticamente tudo. Além dos próprios jornalistas criarem grupos de divulgação no WhatsApp de seus respectivos veículos, os mesmos “infiltram-se” nos grupos onde os acontecimentos sempre são frescos e noticiados em primeira mão.

Conversei com alguns administradores de grupos famosos do segmento na cidade. O bombeiro hidráulico Fabiano Pinheiro gerencia quatro grupos agitados. Segundo ele, a ideia surgiu como uma brincadeira, mas hoje em dia, o processo de levar as notícias de forma rápida para as pessoas tornou-se algo sério, e ainda sim, divertido.

Até aí tudo bem, o pessoal se organiza para levar a notícia para as pessoas de forma imediata. Mas a troco do que? Um jornal tradicional sobrevive com a publicidade investida, com matérias e releases fornecidos por assessorias de imprensa de diversas empresas e no caso do impresso, com a própria venda. E para quem cede o próprio tempo gerenciando estes grupos?

O chapeiro e montador de painéis Elias Pantera uniu o útil ao agradável e por meio dos três grupos que administra, conseguiu patrocínio e parceria de dez empresas. Ele recebe pagamentos e diversas permutas de produtos e serviços, conseguindo assim, incrementar a renda fazendo aquilo que mais gosta de fazer, transmitindo as notícias antes de todo mundo.

Os grupos também servem para que causas sociais ganhem espaço e pessoas recebam doações e ajuda em casos de problemas financeiros ou de saúde. Perdi a conta de quantas matérias produzi divulgando bingos e outras ações sociais que arrecadaram somas e donativos para pessoas necessitadas. Tudo isso por causa dos grupos de pessoas como Elias e Fabiano.

Mas como de praxe, tudo na vida tem o lado bom e o lado ruim. A informação imediata e mal apurada pode causar prejuízos. Sempre que alguém morre ou se envolve em algum acidente sanguinário, as pessoas fotografam os corpos e não sentem o menor pudor em repassar aquelas imagens, que além de repugnantes, causam dor e sofrimento a familiares.

Outro aspecto, que para mim é o mais agravante, é o fato de que alguns grupos são criados exclusivamente para que os membros evitem abordagens policiais e blitz feitas em pontos da cidade. Criminosos também são diretamente beneficiados, pois recebem informações pontuais sobre o posicionamento dos militares, e consequentemente, saem impunes.

O WhatsApp é algo realmente inovador e prático, porém deve ser utilizado por responsabilidade e ética pelas pessoas não familiarizadas às normas práticas jornalísticas. Para os meus colegas de profissão, fica o aprendizado e a necessidade de estarmos sempre nos adequando às novas tecnologias, que estão sempre em constante movimento!

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Texto e Fotos: Caio Machado