Manual da cordialidade patense

A pressa é o principal inimigo de um dia bom. Assinada pelo jornalista Caio Machado, a crônica a seguir lista coisas a serem evitadas e feitas para que tudo possa fluir de um jeito melhor.

Caio Machado
11/04/2017 - 14h55

Manual da cordialidade patense

Nada pode dar errado em seu dia. Logo ao acordar você toma um banho rápido e depois de se vestir percebe que o café acabou. Saí em direção à padaria do bairro e impaciente tenta furar a fila pra tomar um cafezinho acompanhado de um pão de queijo quentinho. Fica revoltado ao perceber que um idoso está batendo papo com o atendente e passa a se comportar de forma desagradável. Três minutos depois você já está com a língua queimada por ter ingerido o café muito depressa e sentindo-se indigesto por mal ter mastigado o pão de queijo.

O restante do dia acontece de forma irregular porque você não percebeu que a sua pressa, originada por não ter se planejado melhor, anulou todas as suas possiblidades de ter sido cordial com as pessoas. Você agiu como um animal no trânsito, esqueceu-se de cumprimentar seus colegas de trabalho, deixou seu filho esperando por quinze minutos na porta da escola, brigou com seu companheiro (a) por motivos banais, etc. Sim, seu dia deu totalmente errado e a culpa disso é só sua e de sua pressa.

O episódio narrado acima acontece o tempo inteiro! Listei algumas coisinhas equivocadas que presenciamos e até fazemos sem perceber aqui em Patos de Minas, ou em qualquer outra cidade, e que deveríamos evitar para que tudo comece a fluir melhor ao nosso redor. A lista não segue uma ordem específica de acontecimentos e as maiorias das coisas podem ocorrer simultaneamente. São elas:

 

  • Deixar o carrinho de compras no estacionamento dos supermercados ou do shopping, impedindo a passagem, ocupando vagas e atrasando o fluxo do trânsito;
  • Estacionar na vaga destinada à deficientes físicos (que acredite ou não, são sim capazes de dirigir);
  • Estacionar em local proibido só por “uns minutinhos” e comprometer espaços destinados a serviços privados e até mesmo obstruir garagens;
  • Não descartar as embalagens de alimentos nas redes de fast-food e no shopping, e ainda se achar no direito de reclamar caso haja o mesmo tipo de lixo nas mesas livres do local;
  • Ignorar ou maltratar atendentes de supermercado ou de qualquer outro tipo de comércio;
  • Jogar lixo no chão;
  • Furar o sinal vermelho assim que ele fecha, acreditando que sempre “vai dar tempo”;
  • Não dar seta para virar e muito menos usar o cinto de segurança;
  • Falar no telefone enquanto dirige;
  • Usar o WhatsApp enquanto pilota a moto;
  • Enxotar cães de rua à pontapés;
  • Enxotar seres humanos (moradores de rua também são da mesma espécie que você, é sério!) que pedem trocados ou um pouco de comida;
  • Desperdiçar e deixar sobras de comida em restaurantes e lanchonetes self-service;
  • Perceber que um veículo está vindo e atravessar a rua andando na diagonal, fora da faixa de pedestres e totalmente desatento e despreocupado em fazer isto de maneira rápida;
  • Conduzir bicicletas em alta velocidade na contramão e em calçadas movimentadas, ignorando o fato de que as leis de trânsito são as mesmas, mesmo para veículos não motorizados e pedestres;
  • Enrolar ou atrasar filas – de qualquer espécie - por mera indecisão;
  • Utilizar injustamente filas especiais destinadas a idosos, gestantes, etc.;
  • Estacionar em fila dupla na porta da escola enquanto busca as crianças;
  • Parar do lado de conhecidos no trânsito e puxar um “dedo de prosa”, empacando os demais veículos;
  • Escutar som automotivo no volume máximo e nem se tocar que está incomodando ao passar em frente à hospitais e escolas;
  • Encontrar um conhecido em um ônibus lotado, parar para conversar e impedir as pessoas de passarem pela catraca, por estar travando o corredor.

 

Estas são apenas algumas das inúmeras situações incomodas que presenciamos e realizamos durante o dia-a-dia pela simples banalidade de acreditarmos estar atrasados. Provavelmente os leitores lembram-se de outras maneiras de agir com inconveniência e muitos deles, estão cientes que as cometem. A justificativa da maioria é que se as pessoas agem assim, porque elas não deveriam? Seria mais simples dar bons exemplos e realizar exatamente o oposto de tudo isto. Listei também as possíveis respostas às situações organizadas acima:

 

  • Levar o carrinho de compras do supermercado de volta para a fila e cumprimentar o funcionário responsável por isto;
  • Não estacionar nas vagas especiais, óbvio...;
  • Se e é proibido estacionar, nem cogitar de parar por um instante que seja naquele local;
  • Descartar as embalagens de alimentos, se possível distribuindo-as em latas de reciclagem específicas;
  • Desejar bom dia aos atendentes de supermercados, demais funcionários de todos os comércios que frequentar, idosos, vizinhos e quem sabe, até pra sua própria família?;
  • Jogar lixo nos locais destinados (lembrem-se das famosas latas de lixo em formato de milho) e caso não haja a possibilidade de descartar, guardar os lixos na bolsa, mochila, bolso e descartar em casa posteriormente;
  • Cruzar o semáforo apenas quando estiver amarelo, sem a necessidade de acelerar e sair por aí afobado colocando em risco pedestres e tudo mais;
  • Sinalizar durante as conversões e usar cinto de segurança. É obrigatório!;
  • Não falar ao telefone enquanto dirige;
  • Pilotar a moto com as duas mãos, não dá pra sequer ouvir mensagens de áudio do WhatsApp usando um capacete, não insista!;
  • Acariciar cães de rua e quando possível, alimentá-los e até mesmo adotá-los;
  • Colaborar com alguma esmola ou alimento e até mesmo direcionar moradores de rua para abrigos;
  • Pesar somente aquilo que você sabe que irá conseguir consumir, além do mais desperdiçar comida é muito feio;
  • Atravessar a rua na faixa de pedestres e quando não for possível, atravessar em linhas retas e com segurança;
  • Entrar numa fila ciente do que irá ordenar e também da forma que irá efetuar o pagamento, já com os títulos, contas e dinheiro separados. Tempo é dinheiro!;
  • Conduzir bicicletas com prudência e respeitando ao máximo às mãos certas, evite calçadas!;
  • Engravidar ou envelhecer para entrar nas filas especiais, caso contrário, só utilizá-las quando nenhuma pessoa com direito ao atendimento prioritário estiver no local;
  • Dar bons exemplos para os filhos, isso não é papel apenas dos professores. Estacione próximo à escola e aguarde pelas crianças no portão de saída;
  • Se encontrar conhecidos, encoste e convide-os para tomar um café, a rua não foi feita para prosear;
  • Ninguém quer saber o que você está ouvindo no interior de seu automóvel, a não ser que você esteja em um festival de som automotivo!;
  • Ir para o fundo do ônibus e liberar espaço para que as pessoas entrem. O mesmo vale para quando for descer, não espere para se aproximar da saída em cima da hora;

 

Isto não é um manual de cordialidade como sugerido pelo título da crônica e seguir esses passos não é o segredo de uma vida melhor, mas pelo menos estaremos todos tentando. Deixo a seguir um trecho da obra “Heróstrato e a Busca da Imortalidade” de Fernando Pessoa, que trata justamente sobre a falsa sensação de estarmos apressados e como isto influencia em todo o restante:

 

“Não trabalhamos o suficiente e fingimos trabalhar demasiado. Movemo-nos muito rapidamente de um ponto onde nada se faz para outro onde não há nada que fazer, e chamamos a isto a pressa febril da vida moderna. Não é a febre da pressa, mas sim a pressa da febre. A vida moderna é um lazer agitado, uma fuga ao movimento ordenado por meio da agitação.”

 

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Agostine Braga é professor de literatura e fotógrafo de rua entre Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

Foto: Agostine Braga