Como ajudar alguém que está pensando em suicídio?

Falar de prevenção ao suicídio é sempre importante. Como o assunto está de volta ao centro do debate público, o Psicólogo Esequias Caetano aponta formas de prevenção.

Esequias Caetano
15/04/2017 - 15h34

Como ajudar alguém que está pensando em suicídio?

O tema “suicídio” voltou ao centro do debate público nas últimas semanas. Desta vez, motivado pela série 13 Reasons Why, da Netflix, e pelo jogo Baleia Azul, que fez sua primeira vítima em Minas Gerais. Novamente as pessoas começam a se questionar de que forma podem prevenir aqueles 9 em cada 10 casos que seriam evitados se as estratégias adequadas tivessem sido empregadas. E mais uma vez, falo sobre o assunto na esperança de que ao menos algumas pessoas aprendam que é possível salvar vidas com atitudes simples, mas que requerem um mínimo de conhecimento.

A primeiro passo para prevenir é entender que suicídio não é uma escolha. Só chega a tirar a própria vida quem acredita que está sem alternativas, quem não percebe nenhuma outra saída para o sofrimento insuportável que está experimentando – e como o assunto é importante, precisarei lembrar do óbvio: uma pessoa só está fazendo uma escolha quando ela percebe mais de uma alternativa. Se ela acreditar que não existem alternativas, ela não está escolhendo. 

A crença de que já não existem alternativas se constrói a partir de uma história de luta, de incontáveis tentativas e de um esforço incalculável para se livrar de um sofrimento intenso, avassalador e insuportável, mas que não cessa. Isso mesmo: a vítima já fez tudo o que conseguia para tentar se sentir melhor, mas a despeito disso, não conseguiu. Nesse sentido, o suicídio é um ato de desistência. Tirar a própria vida não envolve coragem e nem covardia, não tem nada a ver com possuir ou não possuir fé (ao contrário do que dizem alguns). O autoextermínio é, no máximo, um ato de desespero.

Saber disso é importante para que você, leitor, entenda que a pessoa que apresenta os sinais que descreverei a seguir está em seu limite. Ela se encontra no ápice do sofrimento. Qualquer atitude ou comentário que possa piorar a situação precisam ser evitados. Variações de afirmações como “você não precisa ficar assim”, “tem gente em situação pior que você”, “isso é covardia”, “isso é falta de Deus no coração” e outros do gênero se enquadram na categoria das falas que jamais devem aparecer na conversa. Uma pessoa que está sofrendo precisa ser ajudada de forma efetiva. Ela não precisa da opinião preconceituosa de quem faz juízo de valor em relação a seu sofrimento, de quem compara seu sofrimento ou de quem é incapaz de compreendê-lo. Ela precisa de apoio.

O apoio ou a ajuda que podem ser dados a uma pessoa em sofrimento intenso envolve três etapas:

1 – Identificar o risco;

2 – Abordar do assunto;

3 – Encaminhar ao acompanhamento profissional;

A identificação do risco envolve ficar atento aos seguintes sinais:

  • Tentativa prévia de suicídio: alguém que já tentou tirar a própria vida uma ou mais vezes tem cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente.
  • Presença de algum transtorno mental: a grande maioria (mas não todas) das pessoas que se suicida possui algum transtorno mental. Os mais comuns são os Transtornos de Humor, como a Depressão e o Transtorno Bipolar (36%); Dependência Química (22,4%); Esquizofrenia (10,6%) e Transtornos da Personalidade em Geral (11,6%).
  • Presença de falas de alerta: comentários como “não suporto mais viver”, “não aguento mais isso”, “estou cansado(a)”, “quero desistir”, “não vejo mais sentido em nada”, “vocês ficarão melhor sem mim”, “eu sou um peso para os outros” e variações deles são indicativos importantes de risco.
  • Ser amigo ou familiar de alguém que tirou a própria vida: amigos e familiares das vítimas de suicídio precisam receber atenção redobrada!
  • Ter sofrido perdas ou reviravoltas recentes: pessoas que passaram pela perda de entes queridos, perda de emprego, grandes perdas financeiras, mudanças de cidade, país ou estado ou qualquer outra alteração radical na vida também estão em risco.
  • Abuso físico, sexual, psicológico, moral ou outros traumas: vítimas de situações estressantes estremas, como abuso, assaltos, violência ou outras do gênero também estão em risco.
  • Sinais diversos de desânimo, desesperança ou tristeza intensos. Geralmente são sinais não verbais, como deixar de fazer aquilo que gostava; conversar menos; deixar que as coisas da vida comecem a se desorganizar (contas, higiene pessoal, organização da casa, etc) ou começar a organizar muito as próprias coisas; choro frequente; expressões faciais de tristeza, entre outros.

Se um ou mais destes sinais forem identificados você pode passar à segunda etapa da ajuda: a abordagem do assunto. A conversa precisa acontecer em um local discreto e sigiloso, onde ninguém irá interromper e nem ouvir o que for falado; precisa acontecer sem pressa para terminar; é preciso ouvir com calma, sem reagir de modo extremo aos relatos do sofrimento ou dos pensamentos sobre suicídio; é preciso dedicar total atenção à vítima, evitando qualquer atitude que possa transmitir desinteresse; é preciso demonstrar preocupação e cuidado.

Na conversa, diga que está preocupado e pergunte sobre como a pessoa tem se sentido ultimamente. Exemplo: “Tenho notado você mais triste ultimamente, mais desanimado... estou preocupado com você... como tem se sentido?”. Enquanto a pessoa estiver falando, não a interrompa. Fique atento a qualquer pista que indique a existência de outros sinais de alerta. Se, de fato, ela te disser que as coisas não vão bem ou apresentar algum outro sinal de risco (principalmente as frases de alerta), pergunte diretamente: “Você pensou em tirar a própria vida ou se ferir nesses últimos dias?”. Se a resposta for sim, você deve seguir para a terceira etapa da ajuda: encaminhar ao acompanhamento profissional.

Os profissionais mais indicados para auxiliar alguém em situação de sofrimento intenso são o Psicólogo e o Psiquiatra. O Psicólogo trabalha para que esta pessoa consiga, primeiro, reduzir a intensidade do próprio sofrimento a níveis suportáveis e, em seguida, para que ela possa construir uma vida valiosa, que realmente valha a pena ser vivida, cheia de sentido. Como resultado os pensamentos e a vontade de tirar a própria vida devem se reduzir bastante ou até desaparecer. O Psiquiatra, por sua vez, deverá prescrever um medicamento que reduzirá a intensidade do sofrimento até que a terapia comece a fazer efeito – sim, terapia envolve aprender novas formas de pensar, agir e sentir, e para que isso seja possível, há a necessidade de algum tempo de tratamento. Quanto tempo? Isso varia de pessoa para pessoa.

Em Patos de Minas é possível encontrar atendimento gratuito nas Clínicas Escola do UNIPAM e da FPM. O paciente será atendido pelos estagiários do curso de Psicologia, que por sua vez, recebem supervisão de seus professores. É possível obter ajuda, também, através da ONG AMIGOS DA VIDA, que faz atendimento via telefone 24 horas por dia. Para entrar em contato e obter ajuda, disque 141. Se você se identificar com qualquer coisa mencionada no texto, ligue imediatamente para a ONG. Eles podem ajudar!

O apoio profissional é indispensável por causa da complexidade da situação que leva alguém a pensar em tirar a própria vida. Amigos, familiares ou colegas, por mais que queiram, não possuem os recursos necessários para que a pessoa aprenda como sentir de forma menos intensa o sofrimento e a construir uma vida valiosa. Para que se chegue a este resultado é necessário empregar uma série de estratégias terapêuticas bastante específicas, às quais um profissional dedica, no mínimo, cinco anos de sua vida para aprender.

Com a ajuda adequada é perfeitamente possível voltar a ver sentido na vida e gostar de viver. Existem recursos terapêuticos extremamente eficazes para auxiliar pessoas em sofrimento intenso. Não é por acaso que 9 em cada 10 suicídios poderiam ser evitados, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.  

 

Esequias Caetano é Psicólogo Clínico (CRP 04/35023), especialista em Psicologia Clínica (ITCR/ Campinas, SP) e com formação em Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Analítico-Funcional (Instituto Continuum/ Londrina, PR). É sócio da Clínica Ello (www.ellopsicologia.com.br), onde atende adultos em terapia individual e de casais.