Morar nas ruas nem sempre é escolha

O jornalista Caio Machado redigiu um texto sobre a situação dos moradores de rua para a coluna de crônicas do Patos Notícias.

Caio Machado
22/05/2017 - 16h29

Morar nas ruas nem sempre é escolha

Eu era criança quando li pela primeira vez o poema “O Bicho” de Manuel Bandeira. Nunca antes em minha vida eu havia visto o ser humano ser comparado a um animal e menos ainda, de uma forma tão intensa assim.­

“Vi ontem um bicho (...) Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. (...) O bicho, meu Deus, era um homem.”

Pessoas em situação de rua sempre existirão, não é uma coisa remediável como um simples resfriado. A condição está fortemente relacionada à desigualdade social, à injustiça do sistema capitalista, à impossibilidade de ascensão e em algum dos casos, ao próprio livre-arbítrio da pessoa que decidiu viver assim.

Nunca me esqueço da matéria que saiu na Folha de S. Paulo em 2013, que mostrava uma pesquisa feita pelo Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua, relatando que ao menos 92% dos moradores de rua já sofreram alguma desilusão amorosa. Na época eu tinha rompido um relacionamento e achei aquilo uma baita bobagem.

Hoje eu percebo que o abandono pode sim, ser a principal causa de indivíduos perderem a motivação e partirem para as ruas. A falta de apoio e de companhia amorosa, ou mesmo familiar, influencia negativamente e acarreta na perda de motivação com a vida e pode até tornar interessante a “opção” de vagar por aí, vivendo de trocados e restos de comida e lixo.

Na manhã de hoje sai com o cinegrafista do jornal para cobrirmos o caso do morador de rua que amanheceu morto em um colchão debaixo de uma guarita próxima à Praça Antônio Dias. Meus colegas de imprensa não sentiram o mínimo pudor em fotografar o cadáver sendo colocado em um caixão de plástico. Vi aquilo como um ato de desrespeito.

Senti-me perturbado por aquela atitude banal e incômoda, que no fim das contas não serviu para nada, pois as fotos sequer foram publicadas. Mas o incomodo maior foi saber que o próprio rapaz havia decidido viver na rua, mesmo possuindo família, casa, carro e até tendo fama de ser um dos melhores padeiros da cidade. Não consegui entender...

A causa da morte ainda é incerta. Acreditam que ele teve um ataque epilético e morreu asfixiado por estar de bruços. Outro motivo pode ter sido o frio. Quem não se lembra das quatro pessoas em situação de rua que faleceram em São Paulo devido às baixas temperaturas no ano passado? O pior é que isto continua acontecendo!

A cidade não possui centenas de moradores de rua, como foi dito meses atrás por veículos de imprensa locais. São cerca de 30 pessoas, mas o número é incerto, pois os mesmos estão sempre indo e vindo. Não deveríamos estar contabilizando e os vendo como problema ou hostilizando-os, deveríamos estar nos mobilizando para recondicioná-los na sociedade!

Patos de Minas possui a Casa de Promoção Humana, órgão público que abriga andarilhos temporariamente e tenta redirecioná-los. Até outro dia, o local quase fechou por falta de verba. Uma casa de apoio feminina está sendo finalizada por um pastor e outro abrigo voltado ao público masculino será construído no Bairro Quebec pelo projeto Multiplique.org.

Os dois últimos exemplos só precisam de um empurrãozinho e de voluntários para se concluírem. Não consigo propor uma solução ao problema e sequer tenho o poder financeiro para ajudar estas pessoas. Espero até que esta crônica sirva de apelo para que pessoas com estes recursos mobilizem-se em prol da causa.

Independente do motivo ou do contexto, pessoas em situação de rua ainda são pessoas. Não são cães, nem gatos e nem ratos como sugeria o poema do poeta pernambucano Manuel Bandeira. São pessoas e não são invisíveis. Não podemos reverter à situação, mas podemos modifica-la para melhor!

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Agostine Braga é mestrando em Ciência da Literatura pela UFRJ e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

Foto: Agostine Braga