Pequenos assédios sofridos diariamente pelas mulheres patenses

Assinada pelo jornalista Caio Machado, a crônica a seguir ilustra um episódio frequente de assédio sofrido pelas mulheres de Patos de Minas.

Caio Machado
17/08/2017 - 10h22

Pequenos assédios sofridos diariamente pelas mulheres patenses

Patos de Minas, 8h50min - Quem começa a trabalhar às 8h já se encontra a todo vapor no expediente, e quem começa às 9h, está um tanto afoito para chegar ao escritório/firma/fábrica, etc. Afinal, faltam apenas dez minutinhos!

Nessa toada, me deparo com um rapaz dirigindo um Honda/Civic preto no antepenúltimo semáforo da Rua Tiradentes. Na Rua General Osório, uma loirona subia a calçada despretensiosa e toda radiante.

Enquanto o sinal não abre, noto que o cara do Honda/Civic começou a queimar a largada e ir empurrando o carro cada vez mais para debaixo do sinaleiro, aproximando-se da esquina. Considerando o início desta crônica, logo julguei que o rapaz poderia estar atrasado.

Eis que a luz fica verde, e o cara, que estava tão enfiado debaixo do semáforo, mal percebeu a mudança. Arranquei minha moto e vi pelo espelho que o suposto apressado, passou a “seguir” a loira que havia dobrado a esquina e caminhava agora pela calçada da Rua Tiradentes.

O cara simplesmente segurou o trânsito da faixa direita inteira, conduzindo o carro pelo idos de 15-20km/h. Nem se importando com quem vinha atrás. O mais importante para ele no momento, ela ladear aquela moça, no intuito de chamar a atenção da mesma.

Não pude ver o desfecho da história, mas até onde acompanhei pelo retrovisor, o cara atrasou todo mundo por pelo menos uns dois semáforos. A moça parecia indiferente até onde consegui visualizá-la.

Agora vem a minha consternação: em pleno 2017, o ser humano – do gênero masculino, em sua maioria – ainda consegue se comportar de uma maneira esdrúxula, que além de constranger as mulheres, atrapalha e praticamente modifica o ambiente ao redor.

Todo mundo atrasado para o trabalho, enfrentando um asfalto que deixa a desejar, em um esquema de semáforo que não possui tanta eficiência em sincronia, pagando caro pelo combustível e tendo ainda que aturar uma tamanha babaquice como essa.

O pressuposto do cara é que ele realmente iria despertar o interesse da mulher, que ela iria descer da calçada pra rua, escorar na janela do passageiro e puxar uma prosa – quiçá um xaveco. Ele iria parar o carro, ligar o pisca-alerta no melhor estilo patense folgado e dane-se.

Boa parte dos homens ainda tenta usar os carros como instrumento de conquista feminina. Queria generalizar e dizer que isso é um comportamento típico de interior, um tipo de mentalidade atrofiada que ainda não foi abolida, mas isso rola país afora...

Deve ser muito difícil ser mulher em Patos de Minas. Não só aqui, mas no Brasil e no mundo inteiro. Não dá pra sequer andar na rua sem ser cantada, desrespeitada, e ter que lidar com esse tipo de situação todo santo dia.

Por sorte, mesmo com a onda de retrocesso vista nos últimos dias (ex.: protesto nazista em Charlottesville nos Estados Unidos; Bolsonaro sendo defendido na internet por uma condenação de apologia a estupro, etc.) as coisas parecem estar mudando.

O silêncio das mulheres ao depararam-se com atitudes de assédio, machismo e misoginia está diminuindo e ganhando força graças ao poder das redes sociais. Pode parecer que não, mas a mudança está acontecendo, e cabe a nós, também nos inteirarmos e seguirmos com o fluxo.

Hoje acordei e dei de cara com uma postagem de desabafo da ex-esposa de um músico gaúcho que teve de lidar por cinco anos com um relacionamento repleto de infidelidade. No campo de comentários, centenas de meninas que passaram pela situação se identificavam e a apoiavam.

Dias atrás, Chico Buarque era duramente criticado devido à temática “datada e machista” da nova música “Tua Cantiga”, lançada no fim do mês de julho. Dá pra acreditar que o mesmo cara que driblou a censura durante a ditadura militar cometeria um deslize desses?

Pode ser que ao reportar a atitude do motorista do Honda/Civic a situação não melhore. Mas só de pensar que algum outro homem que trate as mulheres desta forma, possa estar lendo este texto e refletindo sobre como melhorar, já sinto uma ponta de esperança.

Simone de Beauvoir uma vez disse que “é pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem”. A meu ver, os homens é que precisam trabalhar muito para prestar o devido respeito que as mulheres merecem.

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Agostine Braga é mestrando em Ciência da Literatura pela UFRJ e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

Foto: Agostine Braga