Uma dor sentida por todos

Um texto reflexivo sobre a violência contra as mulheres escrito por Julia Mota Magaraia e Ana Andrade.

05/10/2017 - 15h00

Uma dor sentida por todos

Por vezes, é deveras confortável debater sobre pautas direcionadas a mulher dentro do ambiente acadêmico. Mas existem situações, como agora, que nos expõe as misérias existentes em nós mesmas. Nós, que promovemos conversas sobre violência, assédio, desigualdade, nos deparamos mais uma vez com a incapacidade de termos evitado algo. Um movimento que resiste, mesmo rodeado de medo, essa noite, não conseguiu salvar a vida de uma mulher. Falhamos.

Nesse momento, a sociedade patense sangra, agoniza de dor, enlamiados pela violência e o discurso de ódio. Prestamos solidariedade a família dos jovens que foram vítimas de tamanha tragédia e frieza. É impactante, nos choca e entristece.

Precisamos conversar. Precisamos parar tudo o que estamos fazendo nesse momento e começar a procurar nossa sensibilidade, nossa humanidade que foi perdida.

Não foi preciso muito tempo para aparecer comentários na notícia culpando a vítima, a mulher violentada, a jovem morta. Percebemos que engolimos a nossa empatia e estamos vomitando discurso de ódio.

Aos agressores, adjetivos que os colocam fora da realidade. Monstro. Doente. A vítima, a ela cabe a investigação sobre o passado, quem era, como se comportava, afinal: o que ela fez?
E será mesmo que ela fez algo? O erro é dela?
E você o que fez?

Enquanto mais uma mulher era assassinada, estávamos todos acomodados. Aceitando os números da violência. Patos de Minas foi “contemplada” em segundo lugar no ranking da violência doméstica em MG. E o que você fez? O que nós fizemos?A cada debate levantado, surgem argumentos covardes a fim de nos calar.

Entre marido e mulher não se mete a colher não é mesmo?

3.790. TRES MIL SETECENTOS E NOVENTA*. Esse foi o número de mulheres vítimas de violência pelo “crime” de ter nascido mulheres, apenas em Patos de Minas, em 2016. Mulheres que muitas vezes se viram desamparadas, vítimas dos próprios parceiros. Porque nem eu e nem você estávamos lá.Mas pra julgar? Ah, foram muitos. “Ela sabia que não ele não prestava”, “Ela pediu também”, “Não era hora de estar na rua”, “Se tivesse em casa ...”.

Essa manhã, acordamos com sangue nas mãos. O corpo de uma mulher foi exposto, dilacerado. Porque continuamos aceitando que não se fale sobre a violência da forma como ela é. Como violência de gênero. Feminicídio.

É preciso que esse debate saia do ambiente acadêmico, e se permeie na sociedade, até atingir as mulheres que mais sofrem com o ódio dessa sociedade, que nos enxerga como objetos a serem conquistados. Objetos de sua posse, submissos.

Darc e Abner, hoje suas vida foram tiradas com covardia. Interrompida pelas mãos de uma pessoa vazia. Nós falhamos. Nós falhamos todos os dias. Mas seguimos em luta, cada um da sua forma, para que a empatia seja reestabelecida, para que a humanidade não seja esquecida. Para que se tenha uma mudança nas relações estabelecidas na sociedade. Pelo fim dos estereótipos, do ódio, da violência, do preconceito. Misoginia.
Com tanto para falar, o grito para na garganta. Agora, já é tarde demais.

 

* Fonte dos dados: http://www.noticiasdasgerais.com.br/2017/03/07/patos-de-minas-e-a-segunda-cidade-de-minas-que-mais-tem-casos-de-violencia-domestica-contra-mulher/

Texto: Julia Mota Magaraia e Ana Andrade