O outdoor de Bolsonaro na Rua Major Gote

Uma crônica assinada pelo jornalista Caio Machado sobre o outdoor que enaltece à figura do presidencial Jair Messias Bolsonaro em Patos de Minas.

18/10/2017 - 17h34

O outdoor de Bolsonaro na Rua Major Gote

Liguei em duas empresas que prestam serviços publicitários em Patos de Minas para orçar o preço da veiculação de outdoors pela cidade. Uma delas foi pontual e informou que o valor para rodar a arte e pregar nos outdoors que estiverem disponíveis seria de 500 reais, no prazo de 15 dias. A outra empresa, prometeu me enviar um e-mail com os valores e pontos disponíveis. Ainda não recebi.

Ambas as empresas foram educadíssimas e por meio dessa crônica, peço até desculpas pelo tempo cedido ao disponibilizarem para mim o valor dos serviços solicitados. O motivo da curiosidade a respeito dos valores foi o fato de que Patos de Minas amanheceu com um outdoor enaltecendo a figura do polêmico deputado e presidenciável Jair Bolsonaro.

O cartaz veiculado na Rua Major Gote, admira-me muito, na porta de um centro universitário, está estampado com uma bandeira do Brasil e o com o candidato sinalizando “paz e amor” com os dedos, além do gritante questionamento “NÓS APOIAMOS A HONESTIDADE, O PATRIOTISMO E OS PRINCÍPIOS FAMILIARES. E VOCÊ?”

Assinado pelo Grupo BPM (Bolsonaro Patos de Minas), tudo indica que o cartaz foi financiado com a própria grana de tais membros simpatizantes do capitão da reserva do Exército. Tentei contato com o grupo pela página do Facebook* e não tive sequer minha mensagem visualizada. Com 89 curtidas e poucas postagens, não há nenhum material na página que aponte a autoria do projeto.

Até aí tudo bem, um ano antes da corrida eleitoral, supostamente presenciamos patenses fazendo propaganda gratuita para um presidencial. Nos meus 26 anos de vida, nunca me deparei com um ato passional por outro político e no contexto diário de escândalos de corrupção e impunidade escancarada que estamos vivendo, esta ação apontaria, no mínimo, uma nova liderança política.

Jair Messias Bolsonaro tem 62 anos e está na política carioca desde 1989. Atuou brevemente como vereador e desde 1991, ocupa uma cadeira do Congresso Nacional como deputado federal. Figura controversa, é lembrado pelo conservadorismo, nacionalismo e por defender com afinco questões de segurança pública, como armamentismo do “cidadão de bem” e severas punições a criminosos.

Lembrado na internet como “mito”, o pré-candidato à presidência da república pelo Patriotas (oitavo partido ao qual se filia), também carrega dezenas de polêmicas devido a posicionamentos preconceituosos, em sua maioria homofóbicas, discursos de ódio que incitam a violência e até mesmo pelo fato de sair em defesa de torturadores do regime militar brasileiro.

Tive minha infância marcada quando vi em um livro de história a foto do jornalista iugoslavo Vladimir Herzog enforcado. Aquela imagem me chocou, pois Vlado foi deixado amarrado à cinta do macacão que usava em uma janela baixa, de joelhos, como se tivesse praticado suicídio. Esse foi apenas um dos incontáveis horrores que ocorreram durante o período da ditadura.

Durante o escatológico processo de votação a favor do impeachment de Dilma Roussef, Bolsonaro dedicou o voto à memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, tido pelo mesmo, com o pavor da ex-presidenta. Morto em 2015, o ex-chefe do DOI-CODI foi reconhecido como torturador na primeira instância da Justiça. Jair Bolsonaro o considera como um herói brasileiro.

O discurso que começou parabenizando o réu da Lava Jato, Eduardo Cunha, não parou por aí. O deputado dedicou o voto à família, porém em uma palestra ocorrida no Clube Hebraica em abril deste ano, Bolsonaro mostrou que com ele, o conceito de família ainda é algo patriarcal e machista. “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher", declarou.

E esta não foi a primeira vez que Bolsonaro evidencia a maneira de como trata as mulheres de forma inferior. Após um histórico de quase uma década de ofensas voltadas à deputada federal gaúcha Maria do Rosário, o parlamentar desceu o nível e incitou estupro publicamente ao dizer que "ela não merece (…) porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria".

Bolsonaro foi condenado por danos morais, mas não perdeu o mandato. Em 2015, o audacioso candidato querido pela “família tradicional brasileira” afirmou em uma entrevista ao jornal “Zero Hora” que mulheres deveriam receber menos do que os homens pelo fato de engravidarem. Para o parlamentar, os direitos trabalhistas brasileiros tornam a contratação de mulheres inviável para os comerciantes.

Igualdade de gênero é mato. Não me admira que eu nunca tenha visto ou ouvido falar da figura materna e da própria filha de Bolsonaro. A vergonha deve doer de latejar. E não para por aí! Outra polêmica que volta e meia o deputado é flagrado praticando, também envolve questões de gênero, e se trata do comportamento homofóbico, do qual o presidenciável nunca negou.

A talentosíssima atriz hollywoodiana Ellen Page teve o infortúnio de entrevistar o deputado em um documentário rodado para o canal Viceland. Homossexual assumida, a atriz teve de ouvir da própria boca do parlamentar que era “bonita” e que mesmo sendo lésbica "e te visse na rua, eu iria assobiar para você”.

Na mesma entrevista, Bolsonaro atribui o crescimento dos números de homossexuais ao consumo de drogas e vai além, praticamente afrontando Ellen Page: "Com todo o respeito, você foge à normalidade, beira à teoria do absurdo. Você e a sua companheira não geram filhos. Você depende de nós, héteros, homens”. Com todo respeito, isso é sério?

Eu poderia passar horas dissertando a respeito de todas essas atrocidades ditas publicamente por Jair Bolsonaro. E por outro lado, citaria apenas dois projetos aprovados pelo parlamentar em quase três décadas de Congresso Brasileiro. Só consigo concordar que o cara seja um mito. Afinal, ele é um marqueteiro nato e com esse excessivo discurso de ódio conseguiu angariar 4,7 milhões de curtidas no Facebook!

Me admira muito que ele tenha esse número todo de seguidores. Será que o patense machista, homofóbico, misógino e hipócrita finalmente encontrou uma liderança política à sua imagem e semelhança? Será que esses 500 reais gastos neste outdoor não poderiam ter sido revertidos em cestas básicas para famílias carentes de Patos de Minas?

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

 

* Fui informado às 20h20min que a página Bolsonaro Patos de Minas, disponível no link https://www.facebook.com/Bolsonaro-Patos-de-Minas-1745342732143162/ não faz referência aos responsáveis pelo outdoor na Rua Major Gote.

Texto e foto: Caio Machado