Dos três personagens dos semáforos patenses para quem você dá o seu trocado?

Uma crônica poética do jornalista Caio Machado sobre as cores dos semáforos e suas possíveis analogias.

Caio Machado
08/11/2017 - 16h02

Dos três personagens dos semáforos patenses para quem você dá o seu trocado?

verde

 

Domingo que vem tem Enem de novo. Os semáforos da Major Gote já se abarrotam com a gurizada aprovada nos vestibulares. A farinha emplastrada nos fios de cabelo, o ovo choco de galinha dando liga e o batom vermelho insistente em estampar as siglas e colocações nas testas pueris.

O olhar complacente, o orgulho tênue. “Medicina?”, vinte reais. “Engenharia?”, cinco reais. O olhar condizente, o clamor mirrado. “Direito?”, quiçá, dois reais. “Pedagogia?”, o trocado do bolso pequeno da calça jeans, a moeda antiga de 25 centavos. “Jornalismo?”, poxa, o semáforo abriu.

Acredita-se que a soma adquirida no sinaleiro transforma-se em álcool no mesmo dia. Se brincar, o amigo do vestibulando ainda embolsa uma boa parte do montante sem ele ver. Pequenas corrupções que se refletem planalto central afora. Brasília fazendo escola, pelo menos, a nível superior.

 

amarelo

 

A concorrência pelas luzes vermelhas, amarelas e verdes anda disputada. O artista de rua, empapado de suor, cravado de piercings, talhado em pancake e tattoos, trajando cores vivas, ora opacas. Preferem a Fátima Porto ou a Paracatu. O verde perdura mais e os mantém longe do vermelho.

Dizem que o patense é cordial, que paga bem. O olhar julgador, a aceitação varia do humor. O malabarista não deixou cair nenhuma bola, dá-lhe dez merréis. Aquele cara das facas nunca mais foi visto. O da perna de pau impressiona, mas é antipático demais, coisa de gringo. Tá verde, abriu.

Outro dia, dois palhaços gaúchos me disseram no Zeppelin que semaforista ganha bem. Sugeriram até que um professor de inglês largasse o emprego e arriscasse. O lucro seria o mesmo, a arte exalaria, o diafragma trabalharia, o teatro sobreviveria. “Peça demissão amanhã”, aconselhou a dupla circense.

Um deles toca violino em cima de um monociclo. “Só sei uma música, mas sou muito bom”. Já não quer mais essa vida e pratica agora bumerangue. “Não largo meu número porque Porto Alegre precisa de mim”. O artista de rua enriquece acumulando sorrisos. A alegria dos trinta segundos.

Presenciei um artista desses recebendo um panfleto de consultório odontológico de um motorista. A piada não veio do palhaço, e o único sorriso obtido estava estampado na filipeta. Guardou no bolso e seguiu em frente. A ofensa o artista esquece, a ignorância o transeunte ainda carrega.

São vistos como vagabundos por parte das pessoas. Como disse, varia do humor. Não possuem patrão, não batem ponto. São livres? Não tem benefícios e nem décimo terceiro. São livres? Estão imunes à reforma trabalhista, talvez até da portaria da escravidão. Vária do humor dos motoristas.

 

vermelho

 

O terceiro ocupante dos sinais de trânsito não prefere nenhuma rua em específico. Ele chega de mansinho, pois sempre esteve ali. O vestibulando desaparece e até muda de cidade. “Em quatro anos eu volto, mamãe”. Será? O artista itinerante segue para outro município quando o trocado se esvai.

O olhar fantasmagórico, o olhar inexistente. O vidro cerrado, a pressa para que o semáforo se esverdeie. O ronco do motor cresce de acordo com a aproximação deles. O desconforto é imensurável. Estes “personagens” são mais raros, porém raramente aceitos pelos patenses.

Não há glamour em suas vestes. Quando não estão descalços, estão com os calçados furados ou esfolados. Os pertences são sempre de cor bege, seja do papelão, do cobertor sapeca negrinho ou das roupas doadas, encardidas e fétidas. No frio, se bobear, perdem o tom pastel e ficam brancos como a morte.

Estão ali por desilusões amorosas. Outros por vícios tóxicos apenas. Alguns deles, nunca sequer saberemos quais são os motivos. Eu estou apto para julgar? Você está apto para julgar? É incongruente ajudar? Pior ainda, é correto ignorar?

O trocado é coisa rara. Não tem o mérito da aprovação ou da destreza de circo como moeda de troca. Alguns pagam por refeições, outros sequer esboçam afeições. “Não dê dinheiro, dê oportunidade”. Oportunidade não cabe na carteira nem se dobrar. E pare de ler essa crônica que o semáforo já se abriu!

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais