A fila dupla na porta do colégio das irmãs

A crônica desta quinta-feira (08), é sobre as temíveis filas duplas provocadas pelos pais que levam e buscam os filhos nas escolas da Avenida Getúlio Vargas.

Caio Machado
08/03/2018 - 15h59

A fila dupla na porta do colégio das irmãs

Primeiramente Feliz Dia das Mulheres à todas as leitoras do site. A maior parte do público do Patos Notícias é feminino, e muito do nosso crescimento e consolidação se deve a vocês mulheres. Fico feliz pelo fato de que em 2018, a representatividade feminina esteja em voga nas redes sociais e meios de comunicação, cada vez mais ganhando espaço no Brasil. É uma luta diária e constante que deve estar sempre em discussão.

Infelizmente a crônica de hoje não é sobre nenhum tipo de luta feminista. Comecei esta seção no intuito de fugir do lugar comum de noticiar coisas relacionadas à segurança pública e por consequência, trânsito. Eu poderia simplesmente utilizar este espaço para criticar a buraqueira que a cidade se encontra, comparar as ruas da cidade à estradas de terra e novamente à cratera lunares, mas eu compreendo que até mesmo o trabalho de recapeamento se torna em vão devido à agressividade das últimas chuvas.

Porém é inevitável não tocar neste assunto... Na manhã de hoje, a assessoria de comunicação da Polícia Militar enviou uma notícia relacionada a operações que estão sendo realizadas nas portas de escolas da Avenida Getúlio Vargas. A nota ressalta que foram realizadas abordagens nas proximidades da Escola Estadual Marcolino de Barros e ações preventivas em frente ao Colégio Nossa Senhora das Graças.

Não é de hoje que nos deparamos com as famosas filas duplas que ocorrem justamente na hora do rush em frente ao colégio das irmãs. Por não dispor de um estacionamento interno, os pais de alunos precisam disputar as limitadas vagas do acostamento local. A cena se torna um espetáculo à parte em infrações por minuto!

Já presenciei uma mãe dentro de um carro, com ar condicionado ligado, mexendo no smartphone tranquilamente, imersa num mundo virtual, como se nada mais estivesse acontecendo, apenas esperando os guris saírem da escola. E claro, a placa de embarque e desembarque que limita a estadia no local por apenas cinco minutos, das 06h às 18h, sendo totalmente ignorada. E esta situação se repete frequentemente, de duas a quatro vezes por dia!

Quem chega pela Rua Tenente Bino e almeja convergir à direita, por muitas vezes precisa aguardar que os pais que estão em fila dupla deem no pé. Caso contrário, nada feito. Até fila pra entrar na fila dupla os pais de alguns alunos precisam enfrentar, é mole? Por outro lado, o fluxo intenso de carros na Avenida Getúlio Vargas fica a mercê de disputar a pista da esquerda parcialmente liberada, porém menos congestionada.

Por sorte, depois do cruzamento com a Avenida General Osório, os semáforos já não são mais um problema para quem segue pela Avenida Getúlio Vargas, porém a faixa de pedestres elevada que possibilita a travessia de estudantes do Colégio Nossa Senhora das Graças também precisa de ser respeitada. Acontece que até nela, os pais de alunos praticam a tal fila dupla, que além de perigosa, trata-se de uma infração grave, sujeita a multa no valor de R$195,23 e perda de cinco pontos na carteira!

Meu questionamento é básico: qual é o problema em procurar uma vaga mais adiante e estacionar em outro lugar, caminhar a pé até a porta da escola e voltar até o carro com os filhos? Qual é a justificativa para não fazer isto e cometer as infrações citadas acima? Pressa? Duvido muito… Comodidade? Possivelmente. Preguiça? Com certeza!

Certas pessoas transformam os carros em extensão de seus corpos. Se desejam ir até a padaria que fica a 70m de casa, vão de carro. Quando saem para buscar alguma pessoa, esperam na porta do local e esmurram a buzina até que a pessoa se locomova até o automóvel. Qual é o custo de descer do veículo, tocar a campainha ou interfone, tecer um dedo de proza com o porteiro ou desejar bom dia a algum familiar, enquanto espera a pessoa se aprontar?

São atos incompreensíveis e banais, que na maioria das vezes poderiam ter se tornado demonstrações gratuitas de gentileza ou mesmo ações que proporcionariam mais fluidez e dinâmica. E como a incidência das filas duplas se dá na porta de um colégio, outro questionamento me vem a cabeça: por que pagar caro pela educação dos filhos e ao mesmo tempo dar esta aula de infrações de transito, que volta e meia, resulta no xingamento de transeuntes e motoristas que são arbitrariamente lesados pelo engarramento provocado?

O mais curioso é notar que nas demais escolas da Avenida Getúlio Vargas, a mesma situação praticamente inexiste. Estamos falando de escolas estaduais, com pontos de ônibus a poucos metros e alunos com pais em situações menos favoráveis. Eu não queria partir para esse tipo de crítica social, porém são poucos os alunos da rede pública que chegam e deixam as escolas em carros. Quando acontece, a carona chega em carro popular. No colégio citado anteriormente, as filas duplas quase se assemelham ao Salão do Automóvel de São Paulo, de tanto carro importado!

O trabalho da Polícia Militar é louvável e, com certeza, deveria ser praticado mais vezes no local. Porém as leis de trânsito existem para serem seguidas, uma situação desta sequer deveria ser controlada por militares. Um pouquinho de bom senso dos pais seria o bastante para que isto não acontecesse. Se cada um fizesse sua parte, ninguém precisaria se estressar no trânsito e eu não precisaria escrever sobre isto em outra crônica...

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Agostine Braga é mestrando em Ciência da Literatura pela UFRJ e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

Foto: Agostine Braga