Só mesmo com um apagão para interagir com as pessoas!

A crônica desta semana relata como uma queda de energia fez com que os patenses, mesmo que por pouco tempo, notassem as pessoas ao seu redor.

17/04/2018 - 11h30

Só mesmo com um apagão para interagir com as pessoas!

Estava tomando banho quando a energia acabou. Foram três piques breves, seguidos de um completo apagão. Por sorte eu já tinha enxaguado o resto do xampu e só me restava agora enxugar e sair do banheiro. Nessas horas a gente percebe o quanto o hábito nos torna aptos de caminhar por um local ao qual estamos familiarizados, porém também nos faz vislumbrar o quão difícil seria a vida de uma pessoa que sofre de cegueira.

Minha primeira ação após me vestir foi alcançar meu celular e sondar nos grupos de WhatsApp quais os bairros haviam sido atingidos e o motivo daquilo ter acontecido. Percebi que tinha pouca bateria e resolvi pegar o meu Kindle (um daqueles tablets retroiluminados para leituras de livros) e utilizá-lo como lanterna. Meus familiares trataram de alcançar as velas que estavam guardadas em lugares praticamente esquecidos.

Há quanto tempo eu não presenciava um apagão e sequer me dava conta da dependência da energia elétrica que nos encontramos para “sobreviver” ou “existir”. A única atividade que consegui pensar em fazer que não demanda de eletricidade, era tocar violão, mas não me parecia ser a melhor coisa naquele momento. Observar o céu seria uma das opções, porém ele estava tão nublado que não pude ver uma estrela sequer.

Pelo WhatsApp, um leitor do site sugeriu que eu escrevesse uma crônica sobre a interação humana promovida pelo apagão. Adorei a ideia, todavia a primeira coisa que me veio a cabeça foi a de abrir um editor de texto para começar a escrever! Reparei que meus velhos calos talhados por lápis ou caneta simplesmente sumiram. Infelizmente confesso que não tive coragem de escrever este texto em papel e só o faço agora no conforto do meu notebook.

Uma das coisas que ficou em evidência para todos foi a carência de compartilhar aquela experiência de escuridão com alguém. Até dava para fazer isto utilizando o 4G do celular, porém eu tinha a sensação de que se a bateria acabasse, a coisa poderia ficar preta… literalmente. Os vizinhos que nunca se falaram, resolveram sair de suas tocas e indagarem qual teria sido o motivo daquele apagão, ou apenas trocar velas ou emprestar carregadores portáteis de smartphones.

A experiência me fez lembrar da minha infância nos anos 90 em que esta situação era muito mais frequente. Minha sobrinha de oito anos estava muito empolgada pois havia sido a primeira vez em que ela se deparava com um apagão. Justo ela, uma assídua utilizadora de tablet, teve a sorte, mesmo que por pouco tempo, de desfrutar de um pavio de vela sendo consumido pela tímida chama alaranjada. Se a situação perdurasse, ela veria os alimentos da geladeira descongelando e até teria que tomar um desconfortável e nostálgico banho de caneca!

A felicidade não durou nem meia hora. A energia voltou e aquele “choque” de realidade fez com que todo o burburinho provocado pela ausência da luz fosse rapidamente esquecida… Menos de dez minutos depois, a energia caiu e voltou de novo. Caiu e voltou... Caiu e voltou, mas depois não caiu mais. Juro que meu subconsciente torceu para que a coisa toda permanecesse no escuro, porém não levou muito tempo para que eu esquecesse de tudo e retornasse pra minha vidinha digital e eletrificada.

A gente até se esforça, mas a eletricidade - seguida da tecnologia que ela alimenta - criou uma lacuna muito grande em se tratando de diálogo, mutualismo e presença. As pessoas saíram para as ruas, mas no primeiro vestígio de que a luz iria voltar, retornaram para dentro e se confortaram com algum eletrodoméstico. É como se fosse um vício! Fico imaginando como serão as coisas quando todas as pessoas do planeta já tiverem nascido numa geração em que desde bebê se acessa a internet e que o conceito de interatividade “padrão” tenha se perdido...

Texto e foto: Caio Machado