Dinheiro carimbado com a imagem de Lula só não vale para quem não quer

Assinada por Caio Machado, a crônica desta sexta-feira é sobre a viralização de um vídeo em que cédulas são carimbadas com uma imagem do ex-presidente da República e a frase “Lula Livre”.

Caio Machado
04/05/2018 - 17h04

Dinheiro carimbado com a imagem de Lula só não vale para quem não quer

Esta é um crônica de cunho humorístico e não representa a linha editorial ou espectro político do site Patos Notícias

 

Quando eu era criança nos anos 90, a internet era algo inacessível para a grande maioria, ainda mais vivendo numa cidade interiorana como Patos de Minas. Naquela época, se comunicar com uma pessoa sem precisar necessariamente de encará-la era mais difícil do que atualmente, quando um simples cadastro no Facebook já quebraria o galho. Era preciso ligar, enviar SMS ou mesmo escrever uma carta e enviá-la pelos correios.

Foi devido à esse entrave comunicacional que naquela época me deparei com uma cédula de um real rabiscada com uma declaração de amor. Não me lembro dos detalhes, mas sei que a mensagem estava assinada e destinada a uma moça residente do município de São Gotardo. Era uma carta romântica na qual o platonismo e a falta de coragem motivou o seu autor à escrevê-la no dinheiro com o intuito de que o mesmo alcançasse sua amada.

Se este excêntrico método de declaração amorosa funcionou é algo a se questionar, pois a nota veio parar aqui em Patos de Minas, 115km de distância! E sabe se lá, por onde ela passou até sair de circulação. Mas eu fico imaginando que se a moça recebeu a nota, que talvez tenha sido entregue pelo próprio autor, a recepção não teria sido das melhores ou mesmo tenha sido despercebida, devido à maneira inusitada pela qual ela foi veiculada...

O engraçado é que essa coisa de escrever em dinheiro parecia mais comum naquela época... Pelo menos na minha vivência. Lembro de mensagens de mau gosto, como “tenho AIDS, cuidado!” ou simplesmente de ver bigodes desenhados na figura que ilustra as células, que por sinal é uma mulher e foi inspirada na pintura “A Liberdade Guiando o Povo” do francês Eugène Delacroix.

Nos últimos dias, viralizou um vídeo em que pessoas carimbavam a imagem do ex-presidente Lula (sendo fichado criminalmente quando ele havia sido preso próximo ao fim do regime militar no ano de 1980), seguida da hashtag #LulaLivre, em um esdrúxulo meio de reivindicar a prisão do mesmo ocorrida no último dia 7 de abril, durante uma das etapas da Operação Lava Jato.

O burburinho foi tanto, que mesmo sem nenhum patense (que conheço) ter obtido alguma destas células carimbadas com a figura petista, causou uma enorme repercussão até nesta cidade, devido à simultânea viralização da informação de que o dinheiro rasurado deixaria de ser válido e que até renderia no encarceramento de quem fosse pego o repassando.

E já que estamos no auge da disseminação das fake news (ou em bom português: notícias falsas), cabe esclarecer que o próprio Banco Central (BC) teve que se posicionar para afirmar que esta invalidez do dinheiro se tratava de apenas mais um boato - não tão maldoso e divertido quanto à cédula de 50 reais da cantora Pabllo Vittar, porém verdadeiramente falso. Segue o pronunciamento do BC:

"Cédulas com rabiscos, símbolos ou quaisquer marcas estranhas continuam com valor e podem ser trocadas ou depositadas na rede bancária. As notas descaracterizadas apresentadas na rede bancária serão recolhidas ao Banco Central, para destruição. O Banco Central incentiva a que as cédulas sejam preservadas, afinal a fabricação de cédulas e moedas gera custos para o país e sua reposição elevará ainda mais esse custo."

É insano perceber os esforços de transformar o Luis Inácio Lula da Silva nesta figura messiânica, depois que ele foi preso e também notar a determinação de seus seguidores em equipará-lo à figura de um mártir como Nelson Mandela. Ele foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro, não pelo seus feitos sindicalistas ou políticos. Eu não acho tão difícil separar estas duas coisas, mas paciência. Poupem as nossas cédulas!

O divertido da situação é perceber o quanto as figuras presidenciáveis andam sendo ovacionadas de maneiras esquisitas por seus seguidores (mais esquisitos ainda). Ano passado mesmo, uma galera aqui da cidade estava levantando dinheiro para divulgar a figura do presidenciável Jair Bolsonaro em outdoors espalhados pela cidade. Imagina esse pessoal pagando a gráfica com notas carimbadas com o rosto do Lula?

Outra face da moeda (ou da nota) é que o ódio pelo Lula fez com que diversas pessoas país afora rejeitassem o dinheiro carimbado. Como eu disse no meu Twitter uns dias atrás, quem não estiver aceitando as cédulas com o tal carimbo do #LulaLivre podem simplesmente doá-las para mim. E você, patense? Já teve a oportunidade de receber alguma nota com o famoso carimbo petista? O quanto está disposto a desapegar-se e doá-las para mim?