Por que os jornais publicam tanta notícia ruim? E como isso nos afeta?

Na coluna de Ciência e Comportamento desta semana, o psicólogo Esequias Caetano discute sobre a curiosa preferência do público por reportagens trágica e os efeitos delas sobre o comportamento.

Esequias Caetano
22/07/2019 - 13h56

Por que os jornais publicam tanta notícia ruim? E como isso nos afeta?

Se você costuma acessar os jornais da cidade já deve ter percebido que a quantidade de notícias ruins, falando sobre assassinatos, corrupção, acidentes e situações de violência, é muito maior que de notícias boas ou neutras. E isso não é novo. Me lembro que quando era criança era comum ouvir de alguns adultos comentários como “jornal só mostra tragédia”.

Recentemente questionei o jornalista Caio Machado, do Patos Notícias, sobre por que a pauta jornalística é tão marcada pela publicação de notícias ruins. E o motivo é surpreendentemente simples: são elas que geram maior audiência e, todo jornal, precisa de audiência para sobreviver. A pergunta então se tornou outra: por que as notícias ruins chamam tanto a atenção? Desta vez, foi o Caio quem me perguntou. Foi desta conversa que saiu a ideia da coluna desta semana.

Fui atrás de pesquisas sobre o tema e encontrei uma conduzida por Marc Trussler e Stuart Soroka, da Universidade McGill, Canadá [1]. Os autores convidaram um grupo de pessoas para ir à Universidade, dizendo a elas que seria feito um estudo de “rastreamento ocular”. A instrução era simples: os participantes escolheriam livremente algumas histórias em sites de notícia para que a câmera fizesse algumas medidas de movimentação dos olhos. Eles podiam abrir as notícias que desejassem, mas precisavam ler a notícia inteira. Depois disso, os pesquisadores exibiram um vídeo curto e aplicaram um questionário com perguntas sobre o tipo de notícias que os participantes prefeririam ler. E os resultados foram surpreendentes.

A grande maioria dos participantes disse, no questionário, que prefere boas notícias. Mesmo assim, a maior parte das notícias selecionadas por eles para leitura foi sobre corrupção, crimes, retrocessos e outros temas que seriam considerados ruins. Parece paradoxal, não parece? E é.

Os pesquisadores explicam o fenômeno por meio de uma teoria chamada “Viés de Negatividade”, que fala de nossa tendência a dar maior atenção às más notícias. De acordo com os estudiosos do assunto, o cérebro humano evoluiu com uma propensão a reagir mais rapidamente a sinais de ameaça ou de perigo como forma de nos manter em segurança. Neste sentido, ler as notícias ruins teria função de “nos informar sobre os perigos do mundo” para que possamos nos defender mais eficazmente. A lógica por trás disso é algo próximo de “é mais fácil me precaver se souber o que irei enfrentar”.

O problema é que nossa tendência a acessar mais as notícias negativas força os veículos de mídia publicar mais delas, se quiserem ter audiência. Como consequência, os jornais nos apresentam uma descrição da realidade que enfatiza os aspectos negativos, sombrios e perigosos do mundo ao mesmo tempo em que fala pouco sobre as coisas boas que acontecem. Como me disse o Caio, as notícias ruins são as mais acessadas. E esse quadro levanta uma terceira pergunta: que efeitos isso tem sobre nosso comportamento?

Os Psicólogos Sociais Aroldo Rodrigues, Eveline Assmar e Bernardo Jablonski fizeram um levantamento das pesquisas já realizadas sobre como a exposição a notícias ruins, especialmente sobre violência, pode afetar o comportamento humano e por que isso acontece. Após analisar os estudos encontrados, eles concluíram que:

  1. As emoções produzidas pelas notícias violentas, como o medo, a raiva, a revolta e o desamparo aumentam a propensão das pessoas agirem de modo violento.

  2. Quando assistimos ou lemos coisas sobre violência nós inevitavelmente pensamos mais nela, e como consequência, os pensamentos sobre violência se tornam mais prontamente disponíveis em nosso sistema cognitivo. O efeito disso é que eles serão os primeiros a surgir em uma série de situações que possam representar oportunidades para agressão. Para tornar mais claro, imagine que um conflito interpessoal: o pensamento “vou bater/matar essa pessoa” surgirá antes de “vou tentar conversar/vou acionar a justiça” na mente de alguém exposto a muitas notícias sobre violência.

  3. A mídia, de forma geral, molda nossa visão de mundo. Quando vemos uma quantidade maior de notícias sobre violência em comparação às notícias boas, temos uma tendência de avaliar o mundo como um lugar mais perigoso do que ele realmente é. Ao vermos o mundo como um lugar mais violento, tendemos a também recorrer a violência para nos proteger – comprando armas, por exemplo – e isso aumenta ainda mais a violência.

  4. Quando vemos ou lemos sobre violência na maior parte do tempo, ela passa a parecer normal e corriqueira. Ela deixa de ser vista como algo anormal ou desviante. Torna-se a regra.

  5. A exposição repetitiva a cenas de violência gera um tipo de “habituação emocional”, que tem como efeito a redução ou eliminação do sentimento de perplexidade, do absurdo ou do sofrimento diante da violência.

  1. Especialmente quando falamos de crianças, que aprendem muito sobre como agir através da imitação do comportamento dos adultos, a exposição a cenas e notícias sobre violência pode dar a elas modelos de como agir e de quais comportamentos são aceitáveis.

Os autores são enfáticos ao afirmarem que a associação entre exposição excessiva a notícias sobre violência aumenta os índices de violência. Conforme explicam, de 3.500 pesquisas já realizadas sobre os efeitos da violência na mídia, 99,5% indicaram algum tipo de consequência negativa junto à audiência. E isso nos coloca em um impasse: nosso cérebro é biologicamente programado para dar mais atenção aos sinais de ameaça (como as notícias ruins), mas isso estimula os veículos de comunicação a publicar mais e mais notícias ruins. Essa sobrecarga nos torna mais propensos a agir de modo violento, fornecendo ainda mais material para a mídia, que nos expõe ainda mais, o que gera ainda mais violência e assim por diante. E agora, como sair deste paradoxo?

Naturalmente não são todas as pessoas que são expostas a muitas notícias sobre violência que se tornam mais violentas. Algumas delas apenas se tornam menos propensas a condená-la quando o motivo parecer justificável em seu ponto de vista. Outras se tornam amedrontadas, e em casos mais extremos, podem chegar a mal sair de casa. O fato é que temos um problema sério, para o qual não existem saídas fáceis. E este é um assunto complexo, que merece uma abordagem especial em outra ocasião.

 

Esequias Caetano é Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica (ITCR/Campinas, SP), com Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética (Behavioral Tech – A Linehan Institute Training Company/Seattle, WA), pós-graduando em Neurociências e Comportamento (PUC/Porto Alegre, RS). Contato: ecaetano@ellopsicologia.com.br

 

MATERIAL CONSULTADO

[1] Trussler, M., & Soroka, S. (2014). Consumer Demand for Cynical and Negative News Frames. The International Journal of Press/Politics, 19(3), 360–379.doi:10.1177/1940161214524832 

[2] Dijksterhuis, A., & Aarts, H. (2003). On Wildebeests and Humans. Psychological Science, 14(1), 14–18.doi:10.1111/1467-9280.t01-1-01412 

[3] Rodrigues, A., Assmar, E. M. L., Jablonksi, B. (2016). Psicologia Social (32a Ed.). Petrópolis: Editora Vozes.