A ferida escancarada e profunda da homofobia em Patos de Minas

Uma crônica do jornalista Caio Machado sobre os atos homofóbicos ocorridos em Patos de Minas nas últimas semanas.

Caio Machado
28/02/2020 - 21h10

A ferida escancarada e profunda da homofobia em Patos de Minas

Após o surgimento da Queen Lounge, uma das primeiras boates da região voltadas ao público LGBT, os homofóbicos ditos “conservadores” de Patos de Minas, saíram da toca e decidiram perseguir o recinto com denúncias de perturbação do sossego, o que culminou na apreensão da aparelhagem de som do local, que opera dentro das normas e possui todos os alvarás de funcionamento.

Vale ressaltar que o estabelecimento chegou a ser vítima das denúncias de perturbação do sossego, antes mesmo de sua inauguração, o que torna o fato pra lá de curioso. Além disto, outra controvérsia envolvendo homofobia ocorreu na cidade, com a veiculação de um banner num site de notícias que promovia um grupo de orações para “curar homossexuais”.

Após os exemplos citados, o Projeto de Lei nº 5099/2020 foi elaborado pelos vereadores David Balla (MDB), Edimê Avelar (DEM), Isaías Martins (MDB) e Paulinho do Sintrasp (DEM), visando multar pessoas que praticarem homofobia e até mesmo suspender e cassar alvarás de estabelecimentos comerciais que desrespeitarem ou mesmo expulsarem membros da comunidade LGBT em Patos de Minas. Porém durante a votação, no último dia 20, o vereador Braz Paulo pediu vistas para avaliar a redação do texto.

A lei contra homofobia surge para colocar em prática no município algo que já está garantido pelo artigo 20 da Lei 7.716/1989 do Código Penal, que configura homofobia como crime de racismo, e mesmo assim, brotaram-se os opositores, justificando que, pasme, a mesma não é necessária por já ser garantida constitucionalmente. O Brasil é essa farra, algo que já é sancionado em território nacional precisa ser reforçado localmente. Foi o beatle John Lennon que certa vez disse “pense globalmente, aja localmente”. No nosso país ocorre justamente o contrário!

Um dos opositores ferrenhos do projeto de lei é o grupo bolsonarista “Nas Ruas”, que chegou a protocolar um pedido de audiência pública para discutir a lei. Não me admira que o ato tenha vindo de seguidores do presidente que foi eleito por normalizar discursos escatológicos e desrespeitosos e angariar a maior parte do eleitorado por praticar homofobia e outras falas agressivas que agradam uma ala radical de extrema direita. Já diria Aristóteles, “os extremos são vícios, no meio deles é que estão a virtude” ...

Antes mesmo do grupo bolsonarista se opor ao projeto de lei, uma figura religiosa, que pretende se lançar como candidato a vereador, publicou um vídeo no Facebook repleto de desinformação clamando para que a Câmara Municipal fosse ocupada durante a votação e nem no local apareceu. Ele termina o manifesto questionando-se por que só as minorias precisam ser beneficiadas e chegou a mencionar “brancofobia” e “evangélicofobia” como possíveis pautas, já que acontecem brincadeiras com todos os grupos.

Sinto dizer que evangélicos e brancos não morrem por serem evangélicos e brancos, já homossexuais continuam morrendo, pois o Brasil continua liderando o ranking onde mais homossexuais são assassinados no mundo. E é lamentável citar ainda que as denúncias contras as religiões de matrizes africanas subiram 47% no último ano. Então é este o motivo do qual as minorias precisam de apoio, e eu achando que só a etimologia de “minoria“ em si já bastaria para entender...

Incrível como pessoas vem a público para pedir que membros da comunidade LGBT sejam desrespeitados sem que nada aconteça e que uma lei que penaliza praticantes de homofobia seja vetada. São capazes de se mobilizar para revisar, discutir e barrar uma lei que busca igualdade e respeito entre seres humanos e ao mesmo tempo estão inertes para reivindicar o que os cidadãos realmente precisam, como melhorias na infraestrutura, saúde, educação, etc.

Eles acreditam piamente que são os comerciantes que irão se prejudicar caso a lei seja aprovada. Na cabeça destas pessoas é um absurdo que lojistas percam seus alvarás por destratar ou expulsar homossexuais ou que pessoas sejam multados por ofendê-los. Queria entender como pensa um homofóbico. Será que ele acorda e indaga: “Caramba, me sinto atraído pelo sexo oposto e não tenho a menor dúvida quanto a isso. Porém, fulano se sente atraído por alguém do mesmo sexo, preciso fazer algo a respeito, se não minha vida não seguirá em frente.”? Não faz o menor sentido!

Atacar a Queen Lounge com denúncias de perturbação de sossego também não ajuda em nada. Além de mobilizar policiais para um trabalho desnecessário, geram burocracias infindáveis para os proprietários do clube e para o Ministério Público até que a devolução do som aconteça. E sendo sarcástico, na pior das hipóteses, com mais boates voltadas para o público LGBT inauguradas, fica até mais difícil que o homofóbico incurável se depare com algum homossexual em algum lugar heteronormativo que ele frequente.

Finalizo o texto com uma fala do próprio Iuri Nunes, sócio-proprietário da Queen Lounge, que afirma que a boate dele não foi feita para que a comunidade LGBT se sinta segura apenas lá e almeja que eles possam se sentir livres em toda a cidade. “Cada dia que passa sem a aprovação de uma lei destas, um homossexual é discriminado, não consegue emprego, tenta se matar, vai para as drogas e a prostituição. Vivemos isso de forma veladas nos estabelecimentos e na cidade, precisamos conscientizar as pessoas que nós sempre existimos iremos e continuar a existir”, conclui Iuri.