COVID-19: seguindo a vida diante da avalanche de informações

Neste artigo, o psicólogo Esequias Caetano sugere como lidar com a pandemia que afeta a rotina e hábito de pessoas no mundo inteiro.

Esequias Caetano
06/04/2020 - 15h44

COVID-19: seguindo a vida diante da avalanche de informações

São poucos os que ainda não entenderam a importância do Distanciamento Social de Toda a População como estratégia para desacelerar o espalhamento do Sars-Cov-2, vírus causador da COVID-19. Todos os países do mundo já adotam a medida em maior ou menor grau. Mesmo líderes que inicialmente resistiam à proposta, como Donald Trump (EUA) e Boris Jhonson (Reino Unido), já aderiram a ela diante do crescente acúmulo de evidências de que esta é a única intervenção que realmente funciona, em combinação com a realização do maior número de exames possível, para evitar a sobrecarga do sistema hospitalar e o consequente aumento no número de mortes (entenda neste resumo da pesquisa que norteou a tomada de decisão do governo do Reino Unido: www.encurtador.com.br/BGKNR). O problema é que ela afeta diretamente a renda dos trabalhadores.

Boa parte do comércio, das indústrias, dos pequenos empresários, dos empreendedores individuais e dos profissionais autônomos precisam parar de trabalhar e, consequentemente, ficam sem ganhar dinheiro. Como as grandes empresas também são fortemente atingidas e tem seu faturamento reduzido de maneira drástica, os empregos formais também estão em jogo.

A situação tem levado muitas pessoas ao desespero. Sem dinheiro, não conseguimos cuidar de necessidades básicas do dia a dia, como alimentação, moradia, água e luz. Por outro lado, se o sistema de saúde se sobrecarregar, muitas pessoas irão morrer simplesmente por não encontrarem leitos hospitalares, sem contar a quantidade de doentes que não conseguirão trabalhar, os impactos disso sobre a produção e na movimentação financeira em geral: diante do risco de adoecer, as pessoas tendem a economizar mais, abrindo mão de comprar itens não essenciais.

É normal sentir medo, tristeza e até raiva diante disso. São emoções esperadas quando nos encontramos diante de situações em que o futuro é incerto, nossas liberdades são limitadas e precisamos renunciar a coisas que são importantes para nós. A questão é que em alguns casos estas emoções podem se intensificar a ponto de começarem a gerar problemas, tanto a nível emocional, quanto a nível de funcionamento social e profissional.

Tenho visto relato de pessoas em estado de pânico e desespero, tanto pela COVID-19, quanto pelos possíveis desdobramentos financeiros da crise. Outras pessoas têm passado por conflitos intensos e repetitivos com amigos, familiares e colegas de trabalho durante o período. Alguns tem entrado em um estado de paralisação que mal conseguem sair da cama. Estas são formas de intensificação emocional: emoções que são esperadas diante das circunstâncias atuais se intensificam a tal ponto que quem as experimenta não consegue mais lidar com elas. 

Uma das condições que contribui para que algo difícil se torne ainda mais difícil é a desconexão de nosso dia a dia, das coisas concretas com que precisamos ou desejamos lidar em nossa casa, trabalho ou círculo social. No lugar de prestar atenção ao que acontece no mundo físico à nossa volta e nos envolvermos com isso, usamos nosso tempo acompanhando ou pesquisando notícias sobre a pandemia, sobre a crise econômica ou sobre o que as pessoas tem falado a respeito. Não importa se fazemos isso pela internet, pela televisão, pelo rádio ou pelas redes sociais. O efeito é o mesmo: desconexão de nossa própria experiência.

Usar o tempo dessa forma cria uma contingência em que, para todos os lados que olhamos, tudo o que vemos são sinais de perigo, de contaminações, de óbitos e de catástrofes. A consequência disso é que nossa mente fica inundada destas informações, passamos a pensar quase exclusivamente sobre isso e, então, as emoções começam a se intensificar rapidamente. Em pouco tempo estamos encarcerados em uma cela de preocupações com coisas sobre as quais não temos controle, o que nos leva a uma segunda condição pela qual nossas emoções se desregulam: pensar demais!

Pensar demais é um problema porque, como humanos, não somos tão racionais quanto acreditamos ser. O medo, natural nesta situação, evoca em nós pensamentos sobre as coisas ruins que podem acontecer. Se damos muita atenção a estes pensamentos, o medo se intensifica. Diante da intensificação do medo, ficamos mais hiper-vigilantes e começamos a tentar monitorar ainda mais as informações sobre a crise, o que inunda ainda mais a nossa mente e o ciclo vai se fortalecendo, como uma bola de neve que cresce indefinidamente.

Uma boa maneira de sair deste ciclo é voltar-se àquilo que está em seu entorno ao invés de acompanhar as notícias ou dar atenção aos pensamentos. Algumas coisas que podem ajudar, são:

  • Aprenda a identificar quando estiver excessivamente desconectado de sua experiência, gastando muito tempo com grupos, notícias ou outros conteúdos relacionados à COVID-19 ou à crise econômica. Uma boa referência, é: você passa mais do que uma hora de seu dia envolvido com isso?
  • Construa uma lista das coisas de sua vida que precisem de sua atenção, como interação com a família, cuidados com a casa, trabalho, coisas que precisam ser organizadas, leituras para colocar em dia, entre outras coisas. Vá fazendo uma por uma, procurando se envolver o máximo possível com as atividades enquanto estiver nelas.
  • Construa uma lista de coisas que costumavam te ajudar a se sentir melhor em seu dia a dia. Esta lista é bastante pessoal e pode incluir coisas como ouvir música; assistir vídeos sobre viagens, moda ou outros temas; brincar com animais de estimação; ler ou qualquer outra atividade que te produza emoções agradáveis ou te ajude a se distrair.
  • Construa uma lista com nomes de pessoas com quem gostaria de conversar, ter notícias ou simplesmente reestabelecer contato. Ligue ou envie mensagens para estas pessoas e puxe conversa sobre outros temas para se distrair.

 

É importante que você tenha estas listas por escrito no papel. Elas funcionarão como mapas com os quais se orientará ao longo de seu dia. Vá fazendo as atividades conforme o dia for passando. Não confie na memória, pois é muito fácil se perder do que é importante quando estamos com muita coisa na cabeça.

Caso precise ou deseje realmente se manter informado, procure por fontes confiáveis. Recorra ao site do Ministério da Saúde, da Organização Pan-Americana de Saúde ou de grandes institutos de pesquisa, como as Universidades Federais. Não confie em textos, vídeos ou outros materiais compartilhados em redes sociais! Se parecerem fazer sentido para você, verifique a veracidade das informações diretamente em sites como os citados acima.

Alguns lembretes adicionais sobre o momento que estamos passando, são:

  • Nós estamos vendo governos e instituições do mundo inteiro trabalhando juntos para encontrar saídas para a situação. Existe um esforço global para isso, o que significa que você não está sozinho. Podemos confiar que os pesquisadores, as autoridades de saúde e os governantes conseguirão encontrar boas saídas.
  • Esta é apenas uma fase difícil e, ao longo da história da humanidade, já passamos por várias outras até piores. Fases difíceis, crises, sempre passam e não é diferente com esta ou qualquer outra.
  • A diferença é que agora temos muito mais tecnologia do que tínhamos nas pandemias anteriores, há muito mais cooperação mundial do que tínhamos em épocas de grandes guerras, há uma preocupação muito maior com o bem estar social (saúde, emprego, qualidade de vida). Isso significa que a tendência é que seja mais rápido e mais fácil passarmos por isso do que foi no passado.

 

Se mesmo utilizando estas estratégias e mantendo estes lembretes em mente a situação continuar muito difícil para você, busque ajuda profissional. Fazer terapia é uma excelente alternativa para quando não estamos conseguindo manejar situações difíceis do dia a dia, afinal, esta é uma de suas funções: nos ajudar a desenvolver recursos psicológicos mais efetivos para enfrentarmos nossos desafios.

 

Esequias Caetano

Psicólogo (CRP 04/35023), especialista em Psicologia Clínica (ITCR/Campinas, SP) com Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética e Treinamento em Terapias de Exposição para Ansiedade (Behavioral Tech/ Seattle, WA), Treinamento Intensivo em Ativação Comportamental para Depressão (IACC/ Curitiba, PR). Cursa especialização em Neurociências e Comportamento (PUCRS/ Porto Alegre, RS). Contato: ecaetano@ellopsicologia.com.br. Siga no Instagram: @ellopsicologia