A moeda de troca da pandemia

Nesta crônica, o jornalista Caio Machado narra a mudança de perspectiva na sociedade devido ao novo coronavírus.

07/04/2020 - 20h34

A moeda de troca da pandemia

Desde outubro de 2016, quando comecei a escrever crônicas para o Patos Notícias, nenhum de meus títulos nasceu antes dos meus textos. Esta é a primeira exceção. Talvez por estarmos em um momento atípico em que o planeta inteiro aprende a lidar com uma ameaça invisível, meu modus operandi tenha se comprometido.

Não vou mentir, por diversos momentos tenho me sentido angustiado, deprimido, assustado e extremamente afetado devido à pandemia do coronavírus. Deixo de me sentir assim sempre que passo a dar menos atenção aos números de mortos pelo mundo e começo a me distrair com coisas que gosto.

Entretanto, basta uma pequena dose de realidade para perceber o quanto eu deveria estar tranquilizado. Pra começar, eu tenho o privilégio de estar numa casa ótima, trabalhando no meu horário comum, me dando ao luxo de em certos dias, poder acordar faltando cinco minutos para começar o expediente da redação.

Não me falta comida, não me falta saneamento básico. Ainda tenho o dinheiro que recebo trabalhando no jornal e, por fim, a possibilidade de recorrer aos meus pais, caso algo horrível aconteça. Não que alguém da cidade esteja interessado na minha vida, e até agora já se foram quatro parágrafos e nada de útil foi dito.

O motivo deste título ter sido escrito antes do texto é que na última semana, um homem bateu em minha porta tentando me vender um produto. Tratava-se de um pote transparente com uma substância branca que o vendedor se referia como um produto de limpeza geral relativo a um projeto social de ajuda e blá blá blá.

Não me recordo mais da descrição feita, mas da feição do homem eu provavelmente nunca me esquecerei. Ele tinha a pele morena e o rosto muito castigado por passar horas ao sol, vendendo coisas ou sabe se lá o quê. As vestes desgastadas eram de cor cinza ou marrom e aparentavam ser de alguma empresa, talvez tenham sido doadas.

No momento em que fui abordado, eu não possuía nenhum dinheiro vivo para adquirir o tal produto de limpeza (e muito menos, interesse). E após dizer que estava liso, o vendedor tentou pechinchar, derrubando o preço de 15 para 10 reais, baixando ainda para oito reais. Após a última negativa, ele indagou:

- Então será que você pode me doar um sabonete?

Sim, meus caros leitores. Se em algum momento no texto você, assim como eu, acreditou que o homem buscava dinheiro para drogas, bebidas ou legitimamente, comida, saiba que a necessidade do andarilho aqui era outra. A moeda de troca em tempos de pandemia pode ser um mero sabonete.

Ainda é cedo para mensurar o colapso econômico que o COVID-19 irá desembestar no globo terrestre. Mas nunca é tarde para quem puder ficar em casa, permanecer por lá e para quem realmente precisar sair, o fazer com sabedoria, evitando aglomerações e higienizando as mãos. Até o mais modesto dos ambulantes já percebeu isto.

Sabonetes podem custar míseros centavos. Nunca foi tão fácil fazer uma boa ação para alguém que precisa mais do que nós mesmos. Do mais rico ao mais pobre, poderíamos passar por isso doando sabonetes e poupando vidas... Pensando em alternativas menos desesperadoras do que uma bancarrota generalizada!

Claro que o problema da pandemia não seria resolvido se doássemos sabonetes. Quem dera desse pra simplificar assim. Porém, não devemos deixar a ganância e o desespero infiltrar em nossa mente, se ainda temos vias para combater a curva de contaminação do vírus. Que a moeda de troca da pandemia seja o bom senso.

Texto e foto: Caio Machado